Mais tempo para sonhar: exposição de Miró é prorrogada e mostra que imaginação também é método

Com mais de 120 mil visitantes em dois meses, “Miró: Mestre das Formas” fica em cartaz até dezembro no MAB FAAP, em São Paulo. A mostra revela que, por trás das cores intensas e figuras quase infantis do artista catalão, havia uma pesquisa constante sobre liberdade, acaso e invenção.

À primeira vista, o universo de Joan Miró parece obedecer a poucas regras. Estrelas, luas, olhos, criaturas estranhas e linhas que parecem ter escapado de algum alfabeto imaginário dividem espaço sobre fundos vermelhos, azuis, amarelos e negros.

Mas a aparente espontaneidade engana.

É justamente essa combinação entre liberdade e construção que pode ser observada em “Miró: Mestre das Formas”, exposição em cartaz no Museu de Arte Brasileira da FAAP (MAB FAAP), em São Paulo. Inicialmente prevista para terminar em 12 de outubro, a mostra foi prorrogada até 13 de dezembro de 2026, depois de ultrapassar 120 mil visitantes em seus primeiros dois meses.

A extensão oferece uma nova oportunidade para olhar com mais atenção para um artista cuja obra se tornou tão reconhecível que, às vezes, esquecemos o quanto ela foi experimental.

Muito além das pinturas

A exposição reúne mais de cem trabalhos de Miró, entre pinturas, gravuras, litografias, esculturas e tapeçarias, acompanhados de fotografias e vídeos. Parte significativa das peças é inédita no Brasil e o conjunto inclui obras provenientes de instituições e coleções ligadas ao artista, como a Fundació Joan Miró, de Barcelona.

Essa diversidade ajuda a desmontar a imagem de Miró apenas como autor de pinturas coloridas.

Ao longo da carreira, ele experimentou diferentes materiais e procedimentos, trabalhou com colagem, objetos, esculturas e gravuras e chegou a incorporar suportes pouco convencionais à produção. O MoMA destaca justamente essa busca contínua por ultrapassar os limites tradicionais da pintura.

Em Miró, mudar de técnica não significava apenas trocar de material. Era uma maneira de procurar outras possibilidades para a imagem.

Quando um ponto pode virar estrela, olho ou planeta

Miró nasceu em Barcelona, em 1893, e se aproximou do ambiente surrealista em Paris durante a década de 1920. Sua obra, porém, nunca ficou completamente limitada ao movimento.

Ele desenvolveu um vocabulário próprio de sinais.

Linhas curvas, pontos, manchas e formas biomórficas podiam sugerir pessoas, animais, estrelas ou elementos da natureza sem necessariamente representá-los de maneira literal. O MoMA descreve esse repertório como uma linguagem visual capaz de circular entre o consciente e o inconsciente.

Esse é um dos motivos pelos quais suas imagens continuam tão abertas à interpretação.

Duas pessoas podem observar a mesma forma e reconhecer coisas completamente diferentes.

Miró não parecia interessado em impedir essa ambiguidade.

Ao contrário, fez dela parte da obra.

Espontâneo, mas nem tanto

Talvez uma das descobertas mais interessantes para quem produz arte esteja justamente no processo do artista.

A obra de Miró frequentemente transmite uma sensação de improvisação, como se linhas e manchas tivessem surgido diretamente de um gesto intuitivo.

Mas seus processos revelam outra história.

Em “The Birth of the World”, de 1925, por exemplo, ele derramou, espalhou e lançou tinta sobre a superfície para permitir que parte da imagem surgisse do acaso. Depois, acrescentou formas e linhas previamente trabalhadas em estudos.

O próprio Miró explicava que o primeiro momento podia ser livre e inconsciente, mas que uma segunda etapa era cuidadosamente calculada.

Essa combinação é importante porque aproxima sua produção de uma questão comum a muitos artistas: até onde controlar uma obra e quando permitir que ela surpreenda quem a está fazendo?

Em Miró, acaso e planejamento não eram opostos.

Trabalhavam juntos.

Uma arte que se recusa a envelhecer

Há algo curioso em observar essas obras quase um século depois.

Muitas continuam parecendo estranhas.

Não porque desconheçamos sua linguagem, mas porque elas evitam explicar tudo. Uma figura permanece no limite entre humano e animal. Uma linha pode ser desenho ou escrita. Uma mancha pode parecer acidente ou decisão.

Talvez essa seja uma das razões para a atração provocada pela exposição.

Miró oferece ao público uma experiência relativamente rara: não exige que encontremos imediatamente uma resposta para aquilo que estamos vendo.

Em uma cultura cada vez mais dominada por imagens consumidas em segundos, permanecer algum tempo diante de uma forma sem conseguir nomeá-la pode ser quase um exercício.

É também uma forma de recuperar a imaginação como parte do olhar.

O artista que continuou experimentando

Miró morreu em 1983, aos 90 anos, depois de uma produção que atravessou boa parte do século XX.

Durante esse percurso, não transformou sua linguagem em uma fórmula confortável. Continuou testando escalas, materiais e suportes, aproximando pintura, poesia, desenho, objeto e escultura. O próprio MoMA registra centenas de trabalhos do artista realizados em diferentes meios.

É por isso que “Mestre das Formas” funciona melhor quando não é vista apenas como uma oportunidade de encontrar um nome consagrado da história da arte.

A exposição mostra algo mais interessante: como um artista consegue preservar a capacidade de experimentar mesmo depois de encontrar uma linguagem reconhecível.

Talvez seja essa a maior atualidade de Miró.

Suas formas podem parecer simples, mas nasceram de uma vida inteira tentando descobrir o que uma imagem ainda poderia ser.

Agora, o público ganhou mais dois meses para tentar descobrir junto.

Serviço

Miró: Mestre das Formas
Museu de Arte Brasileira – MAB FAAP
Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo (SP)
Até 13 de dezembro de 2026
Terça a domingo, das 9h às 20h, com última entrada às 19h.
Ingressos atualmente entre R$ 25 e R$ 60, conforme modalidade e data.

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