Antes das telas: desenhos raros revelam o processo criativo de Tarsila do Amaral

Exposição no Museu FAMA, em Itu, reúne estudos realizados entre as décadas de 1910 e 1940 e mostra uma Tarsila menos conhecida: a artista que observava, testava, simplificava formas e construía imagens muito antes de elas chegarem à pintura.

Quando pensamos em Tarsila do Amaral, quase sempre começamos pelas telas.

Abaporu, A Negra, A Cuca, Antropofagia e Operários se tornaram imagens tão conhecidas que é fácil esquecer que, antes delas, existia outra parte essencial do trabalho da artista: o desenho.

É justamente esse território menos visível que a exposição “Tarsila: Onde Nascem as Imagens”, em cartaz no Museu FAMA, em Itu, coloca no centro. A mostra reúne cerca de 45 estudos produzidos por Tarsila entre as décadas de 1910 e 1940, selecionados a partir de uma rara coleção de 204 trabalhos pertencente ao museu.

O interesse da exposição não está apenas em apresentar obras pouco vistas. Está em permitir que o público se aproxime do momento em que uma imagem ainda estava sendo construída.

Antes da cor, da composição definitiva e da obra consagrada, aparecem o traço, a hesitação, a observação e a escolha.

O desenho como lugar de pesquisa

Na exposição, o desenho não aparece apenas como preparação para a pintura.

Essa talvez seja a principal chave para compreender a mostra.

Há estudos de figuras humanas, paisagens, arquitetura, cenas do cotidiano, projetos ligados ao teatro e composições imaginárias. Em alguns casos, é possível reconhecer ideias que mais tarde ganhariam outra escala ou outra linguagem. Em outros, os desenhos funcionam como trabalhos independentes, revelando interesses que não necessariamente chegaram às telas mais conhecidas.

Essa leitura ajuda a desmontar uma ideia comum sobre o processo artístico: a de que o esboço seria apenas uma etapa menor até a chegada da “obra final”.

No caso de Tarsila, o desenho era também espaço de investigação.

É ali que ela observa proporções, experimenta simplificações, registra viagens, cria personagens e testa relações entre formas.

Para quem trabalha com arte hoje, talvez seja justamente esse aspecto que torne a exposição especialmente interessante. O que normalmente permanece dentro do ateliê, guardado em cadernos, folhas soltas ou estudos que o artista nem sempre considera obras, passa a ser visto como parte fundamental da construção de uma linguagem.

Antes de A Negra e A Cuca, havia estudos

Entre os trabalhos apresentados estão desenhos relacionados a obras centrais da trajetória de Tarsila.

A exposição inclui um estudo de A Negra, de 1923, e outro ligado a A Cuca, pintura de 1924 atualmente pertencente ao Musée de Grenoble, na França.

Vistos ao lado do imaginário que conhecemos dessas pinturas, esses desenhos oferecem uma experiência diferente.

O visitante não encontra apenas uma imagem histórica pronta. Encontra parte do raciocínio que a antecedeu.

É possível observar como determinadas figuras são elaboradas, como os volumes começam a ser simplificados e como elementos que se tornariam característicos da linguagem de Tarsila aparecem ainda em estágio de exploração.

Essa distância entre o primeiro gesto e a pintura acabada é importante.

Ela lembra que aquilo que posteriormente reconhecemos como um estilo não nasce pronto.

Uma linguagem artística se forma por repetição, abandono, tentativa, influência, observação e escolha.

Do aprendizado acadêmico à invenção antropofágica

O conjunto também permite acompanhar mudanças importantes na trajetória da artista.

Parte dos desenhos remete ao período em que Tarsila estudava com o pintor Pedro Alexandrino, entre 1918 e 1920. São trabalhos relacionados a uma formação mais acadêmica, em que observação, figura humana e domínio técnico ocupavam papel importante.

Depois aparecem estudos ligados à passagem por Paris, incluindo desenhos de nus e exercícios desenvolvidos em contato com o ambiente artístico europeu.

Mas o percurso não termina na absorção dessas referências.

Ao retornar ao Brasil, Tarsila passa a elaborar uma linguagem que transforma aquilo que aprendeu fora em outra coisa.

Paisagens, vegetação, personagens, arquitetura popular e formas fantásticas começam a adquirir uma síntese própria. Esse processo desembocaria nas fases Pau-Brasil e Antropofágica, fundamentais para a história do modernismo brasileiro.

Ver os desenhos ajuda a perceber que essa transformação não aconteceu como uma ruptura instantânea.

Ela foi construída gradualmente.

Uma coleção que passou décadas quase invisível

A própria história desses trabalhos também chama atenção.

Parte do conjunto foi catalogada por Aracy Amaral e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1969. Depois daquela exposição, os desenhos permaneceram por décadas em uma coleção particular e praticamente desapareceram da circulação pública.

Segundo levantamento publicado pela Veja São Paulo, o conjunto passou quase cinquenta anos guardado antes de reaparecer em 2017, quando foi adquirido por Marcos Amaro. Como as obras haviam permanecido tanto tempo armazenadas, passaram posteriormente por processos de conservação e restauro.

Esse percurso adiciona outra camada à exposição.

Não estamos diante apenas de estudos de uma artista conhecida. Estamos diante de uma parcela de sua produção que permaneceu ausente do olhar público durante grande parte da história recente.

E isso também influencia a maneira como conhecemos um artista.

A história da arte é construída não apenas pelas obras produzidas, mas pelas obras que conseguimos ver.

O que muda quando vemos o processo

Existe uma diferença importante entre observar uma obra acabada e observar o caminho que levou até ela.

A pintura pronta tende a transmitir segurança.

O desenho revela movimento.

Há linhas que procuram uma forma. Há decisões ainda abertas. Há simplificações e correções. Em alguns casos, há ideias que não chegaram adiante.

Esse tipo de material aproxima o público do artista de maneira pouco comum.

Tarsila deixa momentaneamente de ser apenas a autora de imagens monumentais da arte brasileira e volta a aparecer como alguém diante de um papel, tentando resolver problemas visuais.

Talvez seja aí que a mostra consiga produzir uma identificação especialmente forte com artistas contemporâneos.

O processo criativo raramente é tão organizado quanto parece depois que uma obra está terminada.

Antes de uma linguagem ser reconhecida por outras pessoas, existe um período em que ela ainda está sendo descoberta pelo próprio artista.

Há também desenhos que escapam da Tarsila que conhecemos

Outro aspecto interessante da exposição está justamente no que não corresponde imediatamente à imagem popular da artista.

A coleção reúne nus masculinos e femininos, registros de viagens, estudos arquitetônicos, autorretratos e projetos de personagens ligados a uma peça teatral pensada por Tarsila e Oswald de Andrade que nunca chegou a ser realizada.

São trabalhos que ampliam nossa percepção de sua produção.

Quando um artista se torna muito conhecido, algumas obras acabam concentrando quase toda a atenção. Com isso, trajetórias complexas podem ser resumidas a poucas imagens.

No caso de Tarsila, o fenômeno é particularmente forte.

Abaporu se tornou um símbolo cultural que ultrapassa a própria história da pintura. Operários aparece constantemente associado ao debate social. A Cuca e Antropofagia ajudaram a formar uma espécie de vocabulário visual do modernismo brasileiro.

Os desenhos permitem olhar para além desses ícones.

O valor de guardar aquilo que ainda não parece importante

Há ainda uma questão que a mostra coloca indiretamente e que interessa muito a quem produz arte.

O que merece ser preservado dentro de um processo artístico?

Artistas frequentemente acumulam folhas, testes, fotografias, estudos, versões descartadas, anotações e materiais que parecem ter pouca importância enquanto estão sendo produzidos.

Décadas depois, esses documentos podem se tornar fundamentais para compreender como uma obra foi construída.

No caso de Tarsila, parte do que hoje permite investigar sua linguagem está justamente nesses materiais intermediários.

Eles mostram que arquivo não é apenas uma preocupação posterior à carreira.

Pode começar dentro do próprio ateliê.

Guardar datas, registrar estudos, organizar fotografias e conservar desenhos não serve apenas ao mercado ou à autenticação futura. Também preserva a memória do pensamento artístico.

Antes do ícone, existia a tentativa

Talvez esse seja o aspecto mais bonito de “Onde Nascem as Imagens”.

Tarsila do Amaral ocupa um lugar tão consolidado na arte brasileira que suas imagens podem parecer inevitáveis.

Mas elas não eram.

Antes de Abaporu existir, alguém precisou imaginar aquelas proporções.

Antes de A Cuca ganhar sua paisagem fantástica, existiram desenhos, personagens e experimentações.

Antes de uma linguagem se tornar reconhecível, ela foi uma hipótese.

Os desenhos devolvem essa dimensão de descoberta à artista.

E talvez permitam olhar de maneira diferente também para o processo de qualquer pessoa que esteja criando agora: aquilo que hoje parece apenas um estudo pode ser justamente o lugar onde uma linguagem começa a nascer.

Serviço

Tarsila: Onde Nascem as Imagens
Museu FAMA, Itu (SP)
Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9, Bairro Alto
Visitação de quinta a domingo.
Horário de funcionamento das 12h às 18h.
O ingresso integrado para o Museu FAMA e o Museu Asas de um Sonho está sendo oferecido por R$ 40.

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