Volpi volta a Brasília: exposição reúne seis décadas de pintura e uma história que a cidade quase apagou
Mais de quatro décadas depois de sua última individual na capital, Alfredo Volpi retorna a Brasília em uma mostra com cerca de 25 obras, algumas nunca exibidas ao público, que revelam como paisagens, fachadas e festas populares foram transformadas em uma das linguagens mais reconhecíveis da arte brasileira.
Antes das bandeirinhas, havia ruas, casas, marinhas e paisagens observadas diretamente.
É esse percurso que a exposição “Alfredo Volpi – Os lugares do olhar” apresenta a partir de 17 de outubro, na Cerrado Cultural, em Brasília. Com curadoria de Cinara Barbosa, a mostra reúne trabalhos realizados entre as décadas de 1920 e 1980, provenientes de diferentes coleções, e permite acompanhar mais de 60 anos de transformação na pintura do artista. Cerca de 25 telas compõem o conjunto e várias delas ainda não haviam sido apresentadas publicamente.
Mais do que uma retrospectiva cronológica, a exposição parte de uma pergunta interessante: o que acontece entre aquilo que um artista vê e aquilo que finalmente permanece na pintura?
Quando a paisagem deixa de ser apenas paisagem
Alfredo Volpi nasceu em Lucca, na Itália, em 1896, e chegou ainda criança ao Brasil. Autodidata, trabalhou como marceneiro, entalhador, encadernador e pintor-decorador antes de consolidar sua trajetória artística. Por volta dos anos 1920, começou a produzir paisagens, marinhas e cenas do cotidiano a partir da observação direta.
Com o tempo, porém, aquilo que estava diante dos olhos começou a mudar dentro da pintura.
Casas deixaram de ser apenas construções. Fachadas passaram a funcionar como relações entre retângulos, portas e planos de cor. Festas populares forneceram bandeiras que, progressivamente, ganharam vida própria na superfície.
Volpi não abandonou simplesmente a figuração para se tornar abstrato. Sua obra permaneceu nesse território intermediário, em que uma fachada ainda pode lembrar uma casa e uma bandeirinha continua carregando a memória de uma festa, mesmo quando ambas já funcionam principalmente como forma, ritmo e cor.
A curadoria chama atenção justamente para essa passagem entre observação, memória e imaginação.
A complexidade escondida no simples
Parte da força de Volpi está em fazer parecer simples aquilo que foi construído com enorme rigor.
Suas bandeirinhas talvez sejam o exemplo mais conhecido.
Repetidas incontáveis vezes, elas nunca funcionam apenas como motivo decorativo. A distância entre as formas, as diferenças de escala, a relação entre fundo e figura e, principalmente, as combinações cromáticas transformam cada pintura em um problema novo.
Essa aparente simplicidade levou a curadora Cinara Barbosa a definir um aspecto de sua produção como uma espécie de “complexidade do simples”, em que elementos corriqueiros, como fachadas e festas populares, são reorganizados até se tornarem questões propriamente pictóricas.
O próprio modo de produzir reforçava essa atenção.
Volpi ficou conhecido pelo uso da têmpera, técnica em que o artista preparava cuidadosamente suas tintas e experimentava pigmentos. Pesquisas sobre sua produção mostram que chegou a testar cores deixando amostras expostas à luz para observar sua permanência.
Para quem olha apenas a imagem pronta, esse trabalho quase desaparece.
Mas é justamente ele que ajuda a entender por que suas cores possuem uma presença tão particular.
Brasília já conhecia Volpi antes mesmo de ser inaugurada
Há outro motivo que torna essa exposição especialmente significativa em Brasília.
Volpi participou da própria construção artística da nova capital.
Em 1958, realizou afrescos para a Igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha da 307/308 Sul, projetada por Oscar Niemeyer. As pinturas ocupavam paredes internas do templo e faziam parte daquele momento em que arquitetura e arte moderna eram pensadas juntas no projeto de Brasília.
Mas a obra teve uma vida curta.
Em 1962, apenas quatro anos depois, os afrescos foram raspados e cobertos. Registros e pesquisas posteriores relacionam o episódio à incompreensão e rejeição que as imagens provocaram naquele contexto.
O episódio tornou-se uma das histórias mais curiosas da relação entre arte moderna e patrimônio brasileiro.
A cidade que agora recebe novamente Volpi também é a cidade que perdeu uma de suas obras.
Mais tarde, em 1966, o artista ainda produziria em Brasília o painel dedicado à profecia de Dom Bosco no Palácio do Itamaraty.
Um reencontro depois de mais de quatro décadas
A última exposição individual de Volpi em Brasília aconteceu em 1980, na Galeria Oswald Goeldi, da Funarte. “Os lugares do olhar” marca, portanto, seu retorno em uma individual à capital depois de mais de 40 anos.
Essa distância no tempo também permite outra experiência.
Hoje, Volpi ocupa uma posição consolidada na história da arte brasileira. Suas bandeirinhas são imediatamente reconhecidas e seu nome aparece ao lado de figuras centrais do modernismo.
A exposição, porém, permite recuar para antes do símbolo.
Observar os trabalhos de diferentes décadas significa reencontrar o artista enquanto sua linguagem ainda se transformava.
Antes da bandeirinha virar Volpi, houve paisagem.
Antes da geometria, houve arquitetura.
Antes da imagem parecer simples, houve décadas de observação, memória, experimentação e trabalho.
Talvez seja essa a maior contribuição de “Os lugares do olhar”: lembrar que uma linguagem artística não nasce pronta. Ela vai sendo construída à medida que o artista aprende não apenas a olhar para o mundo, mas a descobrir o que, dentro desse mundo, merece continuar sendo visto.
Serviço
Alfredo Volpi – Os lugares do olhar
Curadoria: Cinara Barbosa
Abertura: 17 de outubro de 2026, às 11h
Visitação: 17 de outubro a 13 de novembro de 2026
Local: Cerrado Cultural
Endereço: SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul, Brasília (DF)
Horário: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 13h
Entrada gratuita
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