Quando o museu reescreve a história: “Abolicionistas Brasileiras” coloca mulheres negras no centro do MNBA

Em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, exposição reúne arte contemporânea, memória e acervo histórico para recuperar trajetórias femininas que permaneceram à margem das narrativas mais conhecidas sobre a abolição no Brasil.

Quem aparece quando contamos a história da abolição da escravidão no Brasil?

A pergunta parece simples, mas a resposta revela muito sobre a maneira como a memória nacional foi construída. Alguns nomes atravessaram livros escolares, monumentos e representações oficiais. Outros permaneceram fragmentados em documentos, relatos familiares e pesquisas históricas ou foram reduzidos a pequenas notas dentro de acontecimentos muito maiores.

É justamente esse campo de ausências que a exposição “Abolicionistas Brasileiras” transforma em matéria artística.

Inaugurada em setembro no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, a mostra reúne, segundo o museu, trabalhos de 40 artistas visuais que revisitam trajetórias de mulheres negras relacionadas à resistência à escravização e às lutas por liberdade no Brasil. A exposição ocupa a recém-reformada Sala Bernardelli e permanece em cartaz até 19 de dezembro, com entrada gratuita.

Mais do que apresentar personagens históricas, o projeto coloca uma questão especialmente interessante para as artes visuais: o que acontece quando artistas contemporâneas passam a produzir imagens para histórias que durante muito tempo tiveram poucas imagens?

Dar imagem a quem quase não entrou nos retratos oficiais

A exposição trabalha com nomes como Aqualtune, Anastácia, Maria Firmina dos Reis e Maria Felipa, entre outras mulheres relacionadas a diferentes formas de resistência e atuação política, intelectual e social.

Também aparecem trajetórias como a de Esperança Garcia, mulher negra escravizada no Piauí que, em 1770, escreveu uma carta denunciando maus-tratos e reivindicando permanecer ao lado de sua família; a de Maria Tomásia Figueira Lima, integrante da mobilização abolicionista no Ceará; e a de Luiza Mahin, cuja história possui lacunas documentais, mas se tornou uma importante referência simbólica da resistência negra no Brasil.

O desafio para as artistas, portanto, não é simplesmente ilustrar acontecimentos conhecidos.

Em muitos casos, trata-se justamente de trabalhar com aquilo que não foi registrado de forma abundante.

Não existem fotografias, retratos oficiais ou arquivos extensos para todas essas mulheres. A arte entra nesse espaço não necessariamente para preencher cada lacuna com uma resposta definitiva, mas para tornar visível a própria existência dessas ausências.

É uma diferença importante.

Uma obra contemporânea não substitui um documento histórico. Ela pode, no entanto, criar uma nova possibilidade de encontro com uma história.

Quando o acervo do museu também entra na conversa

A edição apresentada no MNBA acrescenta uma camada especialmente significativa ao projeto.

As obras contemporâneas foram colocadas em diálogo com trabalhos do próprio acervo do museu, incluindo pinturas de artistas como Maria Auxiliadora e Marcia Falcão.

Isso muda a relação da exposição com o espaço.

Não estamos diante apenas de uma mostra temporária instalada dentro de uma instituição histórica. O próprio acervo passa a participar da discussão.

Um museu nacional de belas artes carrega, por definição, escolhas acumuladas durante décadas sobre aquilo que deveria ser preservado, estudado e apresentado como parte da história artística do país.

Quando uma exposição contemporânea entra nesse ambiente propondo outras genealogias e outras protagonistas, ela também convida o público a observar como essas narrativas foram organizadas originalmente.

Quem foi retratado?

Quem produziu as imagens?

Quais artistas entraram para as coleções?

E quais histórias permaneceram fora delas?

Nesse sentido, “Abolicionistas Brasileiras” não fala apenas sobre o século XIX.

Também fala sobre o próprio funcionamento da memória cultural.

Uma exposição que cresceu enquanto circulava pelo país

“Abolicionistas Brasileiras” não começou agora.

O projeto surgiu anteriormente com um núcleo de trabalhos comissionados produzidos por artistas contemporâneas a partir da pesquisa sobre mulheres que tiveram papéis de liderança e resistência no processo abolicionista. Em sua primeira apresentação no Museu de Arte do Rio, em 2024, a exposição reunia obras de oito artistas vinculadas a essas pesquisas.

Desde então, a mostra cresceu.

Passou pelo Museu de Arte do Rio (MAR), pelo Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Recife, pela Casa da Cultura da América Latina, em Brasília, e pelo Centro Cultural São Paulo. Segundo o MNBA, mais de 100 mil pessoas já visitaram o projeto ao longo dessa circulação.

A trajetória também mostra algo interessante sobre exposições contemporâneas: elas não precisam permanecer idênticas enquanto circulam.

Novas artistas, novas obras, novos acervos e novos contextos institucionais podem alterar o significado do conjunto.

No MNBA, essa expansão ganha peso justamente porque ocorre dentro de uma instituição dedicada à formação e preservação de uma narrativa histórica sobre as artes visuais brasileiras.

Quarenta artistas olhando para a história a partir do presente

Entre as artistas presentes nesta edição estão Luna Bastos, Renata Felinto, Guilhermina Augusti, Lidia Lisbôa, Mônica Ventura, Aline Motta e Manuela Navas. A curadoria é de Ana Carla Soler, com co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues e projeto expográfico de Gisele de Paula.

As obras atravessam diferentes gerações e linguagens.

Essa diversidade importa porque impede que a exposição transforme a experiência das mulheres negras brasileiras em uma única narrativa.

Memória, território, ancestralidade, educação, moradia, liberdade e representação aparecem como questões que atravessam tanto as personagens históricas quanto as preocupações das artistas contemporâneas.

Segundo a curadora Ana Carla Soler, a exposição procura discutir formas de representação da mulher negra e construir outros imaginários possíveis a partir dessas trajetórias.

É nesse encontro entre passado e presente que o projeto talvez encontre sua força principal.

As personagens históricas não aparecem apenas como assunto.

Elas passam a produzir perguntas para o presente.

Quem tem o direito de permanecer na memória?

Museus preservam objetos.

Mas preservam também interpretações.

Quando uma determinada imagem entra para uma coleção, quando uma artista ganha retrospectiva ou quando uma personagem histórica passa a ser representada repetidamente, algo começa a acontecer: aquela presença ganha permanência cultural.

O inverso também é verdadeiro.

Ausência de imagens, documentos e pesquisas pode tornar uma trajetória muito mais difícil de reencontrar.

Por isso, exposições como “Abolicionistas Brasileiras” ajudam a revelar que a história da arte não é formada apenas pelas obras que foram produzidas, mas também pelas obras que foram conservadas, exibidas, catalogadas e estudadas.

Para artistas contemporâneos, existe ainda outra dimensão interessante.

Produzir arte sobre memória não significa necessariamente reconstruir o passado de maneira literal. Pode significar investigar seus vazios, suas contradições e aquilo que ainda permanece sem resposta.

Nesse processo, pintura, fotografia, instalação, vídeo, escultura ou outras linguagens deixam de funcionar apenas como representação.

Elas se tornam formas de pesquisa.

Um museu histórico olhando novamente para sua própria narrativa

O momento da exposição também é simbólico para o MNBA.

O museu passa por reformas desde 2020 e iniciou uma reabertura gradual de seus espaços. “Abolicionistas Brasileiras” foi inaugurada junto à retomada de salas expositivas da instituição, ocupando justamente a renovada Sala Bernardelli.

A diretora do museu, Daniela Matera do Monte Lins, relaciona a presença da exposição ao esforço institucional de aproximar patrimônio histórico e produção contemporânea e de revisar narrativas presentes nas coleções nacionais.

Essa talvez seja uma das questões mais relevantes da mostra.

Não se trata de substituir uma história por outra.

Trata-se de reconhecer que uma história nacional pode ser ampliada quando aparecem documentos, pesquisas, obras e perspectivas que antes receberam pouca atenção.

E um museu que conserva o passado também pode ser o lugar onde esse passado é novamente interrogado.

Serviço

Abolicionistas Brasileiras
Museu Nacional de Belas Artes, Sala Bernardelli
Avenida Rio Branco, 199, Centro, Rio de Janeiro
Em cartaz até 19 de dezembro de 2026
Terça a sábado, das 11h às 17h, com última entrada às 16h30. No segundo sábado de cada mês, das 11h às 15h.
Entrada gratuita e classificação livre.

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