Autorretrato raro de David Bowie com as próprias marcas das mãos vai a leilão em Londres

Ilustração editorial inspirada em um autorretrato de David Bowie com marcas das mãos, criada para a notícia do AQMA.

Obra de 1996 integra um grupo de apenas oito autorretratos produzidos por Bowie e será oferecida pela Sotheby’s com estimativa entre £ 35 mil e £ 55 mil. O trabalho reforça uma dimensão menos conhecida de sua trajetória: a de artista visual, colecionador e pesquisador de pintura.

Um raro autorretrato de David Bowie, realizado em 1996, será levado a leilão pela Sotheby’s em Londres no próximo dia 15 de outubro. A obra integra a venda Modern British & Irish Art Day Auction e tem estimativa entre £ 35 mil e £ 55 mil.

O trabalho chama atenção por um detalhe particularmente íntimo: além do rosto do artista, Bowie pressionou as próprias mãos diretamente sobre a composição, deixando duas impressões visíveis na parte inferior da obra. Executado sobre papel, o autorretrato enfatiza também a assimetria de seus olhos, uma das características mais reconhecíveis de sua imagem pública.

A pintura pertence a uma série de oito autorretratos de grande formato realizados em 1996, durante um período de intensa dedicação de Bowie às artes visuais. A peça que agora chega ao mercado havia sido presenteada pelo artista ao seu galerista em St Ives e permaneceu por décadas em uma coleção privada.

Ilustração editorial sobre a relação de David Bowie com pintura, performance e artes visuais.
Imagem editorial ilustrativa: AQMA.

Bowie também pintava

Embora sua produção musical tenha eclipsado outras áreas de sua atuação, Bowie manteve durante décadas uma relação consistente com as artes visuais.

Ele não apenas pintava e desenhava, como também acompanhava de perto a produção artística britânica e europeia, frequentava galerias e formou uma coleção importante de arte moderna e contemporânea. Sua pintura dialogava especialmente com o expressionismo alemão e com artistas britânicos ligados à figuração mais intensa e psicológica, como Frank Auerbach, David Bomberg e Leon Kossoff.

Essa influência aparece no autorretrato de 1996. Em vez da imagem cuidadosamente construída do astro pop, a pintura apresenta uma figura mais crua, frontal e carregada de matéria. O gesto pictórico parece mais interessado em investigar identidade do que em produzir uma representação fiel ou elegante.

Um retrato com presença física

As marcas das mãos acrescentam uma camada particular ao trabalho.

Autorretratos tradicionalmente constroem a presença do artista por meio da imagem. Neste caso, Bowie deixa também um vestígio físico direto do próprio corpo sobre a superfície.

Essa combinação entre rosto e impressão corporal aproxima a obra de uma discussão recorrente na arte do século 20: quando o gesto do artista deixa de ser apenas meio de produção e passa a fazer parte do próprio significado da obra.

É justamente esse aspecto que torna o trabalho especialmente curioso dentro da produção visual de Bowie. A Sotheby’s apresenta o autorretrato como uma das obras mais pessoais do artista que já apareceram em leilão.

Ilustração editorial de um leilão de arte em Londres relacionado a uma obra de David Bowie.
Imagem editorial ilustrativa: AQMA.

De colecionador a artista colocado à venda

Há também uma inversão interessante nessa história.

Em 2016, poucos meses após a morte de Bowie, a Sotheby’s organizou Bowie/Collector, uma série de três leilões dedicada à coleção pessoal do músico. Mais de 350 obras e objetos foram apresentados, incluindo trabalhos de artistas como Frank Auerbach, Damien Hirst, Henry Moore e Graham Sutherland.

A venda arrecadou £ 32,9 milhões, teve todos os lotes vendidos e atraiu compradores e visitantes de diferentes países.

Dez anos depois, o movimento se inverte: agora é uma obra produzida pelo próprio Bowie que entra no mercado.

Ilustração editorial sobre David Bowie como colecionador e artista visual.
Imagem editorial ilustrativa: AQMA.

Essa passagem de colecionador a artista colecionável ajuda a iluminar uma dimensão de sua trajetória ainda menos conhecida do grande público. Bowie não tratava a pintura como um passatempo ocasional. Ela fazia parte do mesmo campo de experimentação que atravessava sua música, seus personagens, figurinos, performances e interesse constante pela construção da imagem.

O autorretrato de 1996 chega ao leilão justamente nesse ponto de encontro entre essas diferentes identidades.

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