Juarez Machado morre aos 85 anos e deixa legado entre Joinville, Rio e Paris
Multiartista catarinense, Juarez Machado morreu nesta terça-feira, 6 de outubro, aos 85 anos. Com uma trajetória que atravessou pintura, desenho, humor, cenografia, mímica e televisão, ele construiu uma obra singular e levou o nome de Joinville para o circuito artístico brasileiro e internacional.
Juarez Machado morreu aos 85 anos, no interior do Rio de Janeiro, e sua morte mobilizou homenagens imediatas em Santa Catarina. Em Joinville, cidade onde nasceu, a prefeitura decretou luto oficial de três dias e destacou a importância de sua contribuição para a cultura local e para a projeção do município no Brasil e no exterior.
Nascido em Joinville em 16 de março de 1941, Juarez demonstrou interesse pelas artes desde cedo. Ainda jovem, trabalhou com rótulos e embalagens em oficina gráfica, antes de se mudar para Curitiba, onde estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Foi ali que realizou, em 1964, sua primeira exposição individual, iniciando uma carreira que ganharia corpo em múltiplas linguagens.

Do desenho à performance
No Rio de Janeiro, sua atuação se ampliou. Juarez trabalhou como pintor, desenhista, chargista, cenógrafo e ilustrador, colaborando com a imprensa e com a televisão. Nos anos 1970, tornou-se nacionalmente conhecido ao participar do Fantástico, em quadros em que atuava como mímico e interagia com os próprios desenhos, fundindo humor, performance e artes visuais de forma muito particular.
Essa passagem pela televisão é uma das chaves para compreender a amplitude de sua produção. Juarez não tratava desenho, pintura, cenografia ou corpo como campos isolados. Sua trajetória foi marcada por uma circulação constante entre linguagens, com forte presença do gesto, da teatralidade e do humor.
Na pintura, desenvolveu um universo visual facilmente reconhecível, povoado por personagens elegantes, situações urbanas, encontros, festas e cenas que transitam entre ironia, fantasia e observação do cotidiano.
Entre o Brasil e Paris
A partir dos anos 1980, Juarez passou a viver entre o Brasil e a França e consolidou em Paris uma etapa decisiva de sua trajetória. Instalado em Montmartre, ampliou a circulação internacional de sua obra e manteve ateliês e exposições em diferentes cidades europeias.
Mesmo com a carreira internacional, a ligação com Santa Catarina nunca foi rompida. Joinville permaneceu como lugar de memória, criação e retorno, e essa relação se materializou tanto em obras públicas quanto em iniciativas institucionais.

Um legado visível em Joinville
Em Joinville, uma das presenças mais marcantes de Juarez Machado está no mural cerâmico “O Grande Circo”, instalado no Centreventos Cau Hansen. Com cerca de 90 metros quadrados e 963 peças cerâmicas pintadas à mão, a obra tornou-se uma referência visual da cidade e é considerada a maior realização física do artista.
Outro marco dessa ligação é o Instituto Internacional Juarez Machado, inaugurado em 2014 no antigo endereço da casa de seus pais. O espaço preserva parte de sua produção e atua também como lugar de difusão artística, educação e circulação cultural.
A trajetória do artista também foi revisitada em exposições de grande porte. Em 2022, o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, apresentou Juarez Machado – Volta ao Mundo em 80 anos, mostra que reuniu 166 obras em diferentes suportes e percorreu desde sua formação no Paraná até a consolidação internacional em Paris.

Uma obra que permanece
A morte de Juarez Machado encerra uma das trajetórias mais singulares da arte brasileira, mas sua produção permanece em acervos, exposições, obras públicas e espaços culturais que continuam conectando Santa Catarina ao imaginário que ele construiu ao longo de décadas.
Para artistas catarinenses, sua história também permanece como uma referência importante de circulação e permanência: um artista formado entre cidades brasileiras, capaz de construir uma carreira internacional sem deixar de manter vínculos concretos com o território onde começou.
Em Joinville, no Rio de Janeiro, em Paris e no público que acompanhou seu trabalho, fica a marca de um artista que soube transformar desenho, gesto, pintura e humor em uma linguagem própria.
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