Juarez Machado morre aos 85 anos e deixa uma obra que levou Joinville ao mundo
Nascido em Santa Catarina, o artista construiu uma trajetória entre Joinville, Rio de Janeiro e Paris, atravessou pintura, desenho, televisão, cenografia e performance e deixou na cidade natal um instituto dedicado à preservação e circulação da arte.
Juarez Machado morreu na terça-feira, 6 de outubro de 2026, aos 85 anos, em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado, criado pelo próprio artista em Joinville para preservar sua obra e ampliar o acesso à arte. A Prefeitura decretou três dias de luto oficial.
Para Santa Catarina, sua morte representa a despedida de um artista que conseguiu realizar algo ainda raro: construir uma carreira reconhecida fora do país sem romper a relação com o lugar de onde veio.
Juarez viveu no Rio de Janeiro, estabeleceu seu principal ateliê em Paris e expôs internacionalmente, mas Joinville permaneceu presente em sua trajetória. Foi também para a cidade natal que retornou parte de seu legado, não apenas em obras públicas, mas na criação de uma instituição que continua atuando na formação de público e na circulação de outros artistas.
Antes de Paris, havia Joinville
Nascido em 16 de março de 1941, Juarez Machado começou a desenhar ainda criança. Na juventude, trabalhou em uma gráfica e, aos 18 anos, mudou-se para Curitiba para estudar na então Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Em 1964 realizou sua primeira exposição individual, na Galeria Cocaco.
Pouco depois, seguiu para o Rio de Janeiro.
Foi ali que seu trabalho ganhou projeção nacional e começou a escapar das divisões tradicionais entre linguagens.
Juarez foi pintor, desenhista, escultor, ilustrador, caricaturista, cenógrafo, fotógrafo, escritor, ator e mímico. Trabalhou ainda na criação de videoclipes, musicais, cenários e projetos ligados a nomes como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago.
Essa multiplicidade não funcionava como uma sucessão de carreiras diferentes.
Havia algo teatral atravessando praticamente toda a produção de Juarez.
Personagens, gestos, situações absurdas, cenas de boemia, objetos cotidianos e pequenas narrativas aparecem repetidamente em sua obra. Mesmo nas pinturas mais silenciosas, existe frequentemente a sensação de que alguma ação acabou de acontecer ou está prestes a começar.
Quando desenho e corpo encontraram a televisão
Para uma geração inteira, porém, Juarez Machado foi conhecido primeiro pela televisão.
Na década de 1970, participou do Fantástico, da TV Globo, em um quadro no qual aparecia como mímico e interagia fisicamente com seus próprios desenhos. A experiência fez dele um dos pioneiros do uso do desenho de humor associado à performance na televisão brasileira.
Era um encontro pouco convencional entre artes visuais e comunicação de massa.
O desenho deixava de estar apenas sobre o papel. Juarez entrava na imagem, reagia a ela e transformava o próprio corpo em parte da cena.
Visto hoje, esse trabalho ajuda a compreender uma característica que continuaria aparecendo em sua produção: a vontade de não deixar a arte confinada a uma única linguagem.
De Joinville para Paris
A internacionalização aconteceu gradualmente.
No fim dos anos 1970, Juarez passou a circular por cidades como Nova York e Londres. Na década seguinte, estabeleceu-se em Paris, onde manteve um ateliê em Montmartre e desenvolveu parte importante de sua produção. Seu trabalho passou a circular entre Brasil e Europa por meio de exposições, galerias, livros e outras edições.
Paris não apagou Joinville.
As duas cidades acabaram se tornando polos de uma mesma trajetória.
Essa relação ajuda a compreender por que Juarez ocupa um lugar particular na história cultural catarinense. Sua carreira mostra que um artista pode ampliar sua circulação internacional sem transformar a origem em simples informação biográfica.
Joinville permaneceu como memória, identidade e ponto de retorno.
Uma obra de 90 metros quadrados na cidade
Uma das presenças mais visíveis de Juarez Machado em Joinville está na fachada do Centreventos Cau Hansen.
Ali encontra-se “O Grande Circo”, mural de aproximadamente 90 metros quadrados composto por 963 peças cerâmicas pintadas à mão, considerado a maior obra realizada pelo artista. No mesmo complexo cultural está o Teatro Juarez Machado, que leva seu nome.
A obra pública transforma algo normalmente restrito a coleções e galerias em parte da paisagem cotidiana da cidade.
É também uma maneira bastante concreta de entender o legado de um artista.
Algumas obras permanecem em acervos privados. Outras atravessam exposições temporárias. Mas existem trabalhos que passam a fazer parte da memória visual de um lugar.
“O Grande Circo” pertence a essa última categoria.
Um instituto criado para que a arte continuasse circulando
Talvez o gesto mais importante de Juarez em relação à cidade natal tenha acontecido em 2014.
Naquele ano foi inaugurado o Instituto Internacional Juarez Machado, instalado no Bairro América, no terreno onde ficava a casa de seus pais.
A instituição reúne dois pavilhões expositivos, a casa restaurada da família, biblioteca, reserva técnica, jardins e espaços destinados a atividades culturais. Além de preservar mais de seis décadas de produção de Juarez, o instituto recebe exposições de artistas brasileiros e internacionais, realiza ações educativas, cursos, palestras e encontros.
Isso amplia o significado de seu legado.
Juarez não deixou apenas um conjunto de pinturas, desenhos ou esculturas.
Deixou também uma estrutura capaz de continuar colocando outras pessoas em contato com arte.
Para uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo, a existência de uma instituição dessa natureza tem importância particular. Ela ajuda a criar memória local ao mesmo tempo em que mantém aberta uma conexão com circuitos artísticos de outras regiões e países.
O artista que nunca ficou apenas dentro da pintura
A pintura acabou se tornando a face mais reconhecível da produção de Juarez Machado, mas sua trajetória talvez seja melhor compreendida justamente pelas passagens entre linguagens.
Um desenho podia se transformar em performance.
Uma experiência de televisão podia dialogar com a cenografia.
A observação de personagens urbanos podia reaparecer anos depois em pinturas realizadas em Paris.
Humor e elegância conviviam com teatralidade, memória e uma atenção constante aos pequenos comportamentos humanos.
É justamente essa combinação que tornou sua obra facilmente reconhecível sem torná-la completamente previsível.
Sua produção atravessou mais de seis décadas. O acervo preservado pelo Instituto inclui pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, cartazes e publicações.
O que permanece depois de uma carreira
A morte de um artista costuma provocar uma corrida por retrospectivas, imagens conhecidas e números de carreira.
Mas existe outra pergunta que talvez seja mais importante: o que foi construído para que a obra continue existindo depois dele?
No caso de Juarez Machado, parte dessa resposta já está organizada.
Há obras públicas em Joinville. Há documentação. Há um acervo. Há uma instituição dedicada à sua memória. Há trabalhos espalhados por coleções e uma trajetória que conectou Santa Catarina a circuitos artísticos internacionais.
Há também algo menos mensurável.
Para artistas que constroem carreira longe dos maiores centros culturais do país, Juarez deixa o exemplo de uma trajetória em que deslocamento não significou apagamento da origem.
Ele saiu de Joinville, passou por Curitiba e pelo Rio de Janeiro, viveu durante décadas em Paris.
E, no fim, fez o caminho inverso.
Trouxe parte dessa experiência de volta.
Talvez por isso sua história seja maior do que a de um artista catarinense que conquistou projeção internacional. É também a história de alguém que entendeu que uma carreira pode circular pelo mundo e ainda assim deixar raízes suficientemente profundas para transformar a cidade de onde começou.
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