Da cena local ao mundo: o que a trajetória de Mira Schendel revela sobre a valorização da arte brasileira
A consolidação internacional de Mira Schendel mostra que o valor de uma obra não se constrói apenas no mercado. Museus, curadores, arquivos, exposições e circulação internacional podem levar décadas para transformar uma produção artística em referência histórica.
Em junho de 2026, obras de Mira Schendel apareceram entre os destaques apresentados pela Lisson Gallery na Art Basel, uma das feiras mais importantes do circuito internacional. O dado chama atenção não apenas pelo prestígio atual da artista, mas pela longa duração dessa relação: a própria Lisson já havia apresentado Schendel em Londres em 1968. Quase seis décadas separam esses dois momentos.
Nesse intervalo, Mira Schendel deixou de ocupar uma posição relativamente difícil de classificar na arte brasileira do pós-guerra para se tornar uma das artistas associadas à história da arte latino-americana do século 20 em instituições como o Museum of Modern Art, de Nova York. Sua trajetória ajuda a entender um aspecto importante do mercado de arte: valorização raramente é um acontecimento isolado. Ela é construída por uma rede de reconhecimento que pode atravessar gerações.
Uma artista brasileira que chegou ao Brasil aos 30 anos
Mira Schendel nasceu em Zurique, em 1919, e cresceu em Milão. Estudou arte e filosofia, mas sua formação foi interrompida no contexto das leis raciais fascistas na Itália. Depois de deslocamentos pela Europa durante a guerra, chegou ao Brasil em 1949 e se estabeleceu definitivamente em São Paulo em 1953.
Foi no Brasil que desenvolveu a produção pela qual seria reconhecida.
Schendel circulou pelo ambiente intelectual e artístico de São Paulo, mas não aderiu integralmente aos movimentos que organizavam boa parte do debate da época. Embora sua obra dialogue com questões presentes no concretismo e em outras experiências abstratas brasileiras, ela manteve uma pesquisa bastante própria, atravessada por filosofia, linguagem, escrita, silêncio, matéria e percepção. A Phillips descreve sua posição naquele período justamente como a de uma artista que não se alinhava completamente nem ao concretismo nem ao neoconcretismo.
Essa relativa independência ajuda a explicar por que sua obra continua difícil de encaixar em uma única categoria.
Quando uma folha de papel muda uma trajetória
No início dos anos 1960, Schendel recebeu uma grande quantidade de papel japonês extremamente fino. O material se tornou central em uma das fases mais conhecidas de sua produção.
A partir dele surgiram milhares de Monotipias, trabalhos em que letras, palavras, sinais e linhas parecem flutuar sobre superfícies quase transparentes. Vieram também séries como os Objetos Gráficos e experiências nas quais desenho e escrita deixam de funcionar como campos separados. O MoMA relaciona justamente esse encontro com o papel japonês a uma transformação decisiva na prática da artista.
O que hoje aparece como uma linguagem imediatamente reconhecível nasceu de uma investigação de materiais relativamente simples.
Papel, letras transferíveis, tinta, acrílico, fios e elementos frágeis ocupam um lugar importante em sua produção. Em vez de monumentalidade, Schendel muitas vezes trabalhou com transparência, vazio e delicadeza.
É uma observação relevante para artistas contemporâneos porque desmonta uma associação frequente entre valor e sofisticação material. Na trajetória de Schendel, o que permaneceu não foi o custo do material empregado, mas a consistência da investigação construída a partir dele.
O reconhecimento internacional não começou ontem
Mira Schendel teve circulação internacional ainda em vida. Em 1968, por exemplo, participou de exposições na recém-criada Lisson Gallery, em Londres.
Mas existe diferença entre participar do circuito e ocupar uma posição consolidada na narrativa internacional da história da arte.
Esse processo se intensificou sobretudo depois de sua morte, em 1988.
Em 2009, o MoMA realizou Tangled Alphabets: León Ferrari and Mira Schendel, uma exposição dedicada aos dois artistas e às maneiras como transformaram escrita e linguagem em matéria visual. A mostra seguiu posteriormente para o Museo Reina Sofía, em Madri, e para a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.
Poucos anos depois veio um passo ainda maior.
Entre setembro de 2013 e janeiro de 2014, a Tate Modern, em Londres, apresentou uma grande retrospectiva dedicada a Schendel. A exposição depois passou pela Fundação de Serralves, em Portugal, e chegou à Pinacoteca de São Paulo em 2014.
A Pinacoteca apresentou cerca de 150 trabalhos, permitindo acompanhar o percurso da artista das pinturas dos anos 1950 até experiências como as Droguinhas, os papéis japoneses e os trabalhos em acrílico.
Esse tipo de retrospectiva muda a posição de um artista.
Não apenas porque amplia sua visibilidade, mas porque produz pesquisa, catálogo, documentação, novas leituras críticas e aproxima obras dispersas em coleções públicas e privadas.

Antes do preço existe uma construção de valor
Quando se fala em valorização de artistas, é comum começar pelo preço.
No caso de Mira Schendel, o mercado fornece números expressivos. Em um leilão da Phillips, por exemplo, a obra Sem título (XII), realizada entre 1985 e 1986, foi vendida por US$ 970 mil.
Mas observar apenas esse número inverte a ordem do processo.
Antes de uma obra alcançar valores elevados em leilões, existe normalmente um longo percurso envolvendo exposições, crítica, pesquisa acadêmica, galerias, colecionadores, museus, publicações, arquivos e preservação do legado do artista.
Schendel hoje possui dezenas de trabalhos catalogados na coleção online do MoMA e continua aparecendo em exposições que discutem abstração, linguagem e arte latino-americana.
O preço é uma das consequências possíveis dessa estrutura de reconhecimento. Não é sua única medida.
Uma obra pode ter importância histórica sem atingir cifras milionárias. Da mesma maneira, preços elevados não garantem automaticamente permanência histórica.
O papel das instituições na construção de uma carreira
A história de Mira Schendel mostra também que a valorização artística é coletiva.
O artista produz a obra, mas outras estruturas ajudam a fazê-la circular e permanecer.
Curadores reorganizam interpretações. Críticos produzem textos. Museus incorporam trabalhos às coleções. Galerias preservam relações com colecionadores e instituições. Arquivos fornecem documentação. Herdeiros e espólios ajudam a autenticar e organizar a produção. Exposições retrospectivas permitem enxergar décadas de trabalho como um conjunto.
Quando essas estruturas começam a dialogar internacionalmente, a posição de um artista pode mudar significativamente.
É por isso que a internacionalização da arte brasileira não depende apenas de colocar uma obra em uma feira fora do país.
Depende também da capacidade de inserir aquela produção em conversas maiores sobre história da arte, pensamento, sociedade e cultura.
No caso de Schendel, suas pesquisas sobre linguagem, transparência e percepção permitiram que seu trabalho fosse lido tanto dentro da história da arte brasileira quanto em discussões internacionais sobre conceitualismo, abstração e linguagem.
O que Mira Schendel ensina sobre a ideia de “carreira internacional”
Existe ainda uma contradição interessante em sua trajetória.
Hoje é fácil olhar retrospectivamente para Mira Schendel como uma artista destinada ao reconhecimento internacional. Mas carreiras artísticas raramente são tão lineares enquanto estão acontecendo.
Ela passou décadas trabalhando de maneira independente, explorando materiais pouco convencionais e desenvolvendo uma pesquisa que nem sempre correspondia perfeitamente às categorias dominantes do período.
O reconhecimento atual faz parecer inevitável algo que, historicamente, não era.
Para artistas que produzem hoje fora dos grandes centros, essa talvez seja uma das partes mais interessantes de sua história.
Circulação local e internacional não são necessariamente etapas opostas. Uma pesquisa pode nascer de circunstâncias muito específicas, estabelecer relações próximas em determinado ambiente artístico e, posteriormente, adquirir outras leituras quando encontra novos contextos.
A própria história de Schendel passa por Porto Alegre, São Paulo, Londres, Veneza, Nova York, Madri e outros centros sem que sua obra deixe de estar profundamente ligada ao ambiente artístico brasileiro em que amadureceu.
A arte brasileira também muda quando o mundo muda sua maneira de olhar
Talvez a trajetória de Mira Schendel revele algo ainda maior sobre a valorização da arte brasileira.
Durante muito tempo, narrativas internacionais de arte moderna e contemporânea foram organizadas principalmente a partir de Estados Unidos e Europa. Nas últimas décadas, museus e pesquisadores passaram a rever essas histórias, incorporando de maneira mais sistemática artistas latino-americanos que haviam desenvolvido experiências igualmente radicais.
Schendel, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape e outros artistas brasileiros passaram a ocupar espaços cada vez mais importantes nesse processo.
Isso não significa que suas obras tenham adquirido qualidade somente quando foram reconhecidas internacionalmente.
Significa que as instituições internacionais também mudaram sua capacidade de enxergá-las.
A distinção importa.
Porque transforma a pergunta “quando a arte brasileira será valorizada lá fora?” em outra, talvez mais produtiva: quais estruturas permitem que uma produção artística seja documentada, pesquisada, preservada e colocada em circulação por tempo suficiente para encontrar novos públicos?
A história de Mira Schendel mostra que uma carreira pode atravessar décadas até que diferentes peças dessa estrutura se encontrem.
E talvez seja justamente aí que exista uma lição importante para quem acompanha o mercado de arte hoje: valor cultural não surge no momento em que aparece uma cifra em um leilão. Muitas vezes, essa cifra é apenas a parte mais visível de uma história que começou muito antes.
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