Criar para o algoritmo ou para a alma? Daniel Mantis fala sobre arte, natureza e autenticidade
Em um cenário marcado pela velocidade das redes sociais, pelo avanço da inteligência artificial e pela pressão constante por visibilidade, como um artista pode preservar a própria identidade?
Essa é uma das reflexões levantadas por Daniel Mantis em sua entrevista para o projeto Arte que Mora Aqui.
Nascido em Tijucas e atualmente residente em Porto Belo, Daniel Mantis é artista visual, tatuador e designer. Com mais de dez anos de trajetória, desenvolve trabalhos em pintura, muralismo e tatuagem, construindo uma linguagem influenciada pelo mar, pela natureza, pela espiritualidade e pela vida no litoral catarinense.
Uma trajetória construída pelo desenho
A relação de Daniel com a arte começou ainda na infância. O desenho esteve presente em diferentes fases de sua formação e, com o tempo, deixou de ser apenas uma prática pessoal para se transformar em profissão.
Formado em Publicidade e Propaganda, ele passou por experiências relacionadas ao design gráfico antes de direcionar sua carreira para a produção artística.

A tatuagem se tornou uma das principais portas para viver de seu trabalho, ao mesmo tempo em que Daniel continuava desenvolvendo pinturas, murais e pesquisas visuais autorais.
Para o artista, a prática constante foi essencial para construir técnica e identidade. Mais do que esperar pela inspiração, ele destaca a importância de desenhar, experimentar e manter uma relação contínua com o processo criativo.
Natureza, mar e espiritualidade
A natureza ocupa um lugar central na produção de Daniel Mantis. Animais, formas orgânicas, movimentos da água e elementos ligados ao litoral aparecem com frequência em suas obras.
O mar, em especial, não surge apenas como tema visual. Ele influencia a fluidez das linhas, o ritmo das composições e a maneira como o artista compreende transformação, movimento e permanência.
“O mar, para mim, é uma coisa viva. Eu passo por ele todos os dias. É uma extensão do meu ser.”
A espiritualidade também atravessa sua pesquisa. Daniel fala sobre sinais sutis, ancestralidade e sobre a capacidade da arte de revelar dimensões que nem sempre são percebidas no cotidiano.
Seu trabalho nasce da observação e da tentativa de transformar experiências, símbolos e sensações em imagens.
Criar para o algoritmo ou para a alma?
Um dos pontos centrais da entrevista é a relação entre criação artística, redes sociais e aprovação externa.

Daniel comenta que, em alguns momentos de sua trajetória, produziu trabalhos que geravam retorno, elogios e visibilidade, mas que nem sempre correspondiam ao que realmente desejava construir como artista.
“Às vezes eu fazia uma coisa que me dava dinheiro, mas não alimentava a alma. Trazia likes, trazia aplausos, mas eu ficava vazio.”
A fala toca em uma questão cada vez mais presente entre profissionais criativos: até que ponto o artista deve adaptar sua produção ao que funciona nas plataformas digitais?
As redes sociais podem ajudar na divulgação, na aproximação com o público e na criação de oportunidades. Ao mesmo tempo, também produzem uma sensação de urgência e uma pressão para publicar e criar constantemente.
Nesse contexto, preservar o tempo da obra, a pesquisa e a coerência do próprio caminho passa a ser uma escolha importante.
Para Daniel, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre comunicar o trabalho e não transformar o algoritmo em responsável pelas decisões artísticas.
A inteligência artificial e o retorno ao manual
Durante a conversa, Daniel também apresenta uma visão particular sobre o futuro da arte.
Para ele, o avanço da tecnologia e da inteligência artificial pode aumentar o desejo das pessoas por experiências mais humanas, manuais e presenciais.
“Eu tenho uma certa esperança de que o futuro é muito ancestral.”
Em vez de enxergar o futuro apenas como uma expansão tecnológica, Daniel acredita que muitas pessoas podem voltar a valorizar aquilo que carrega tempo, matéria, gesto e imperfeição.
O trabalho manual guarda sinais da presença de quem o criou. Cada linha, camada de tinta e escolha revela um processo que não acontece de maneira instantânea.
Por isso, Daniel segue investindo em uma produção que considera coerente com sua identidade. Sua reflexão não rejeita necessariamente a tecnologia, mas questiona o lugar que ela ocupa no processo e o risco de o artista abandonar sua própria pesquisa apenas para acompanhar tendências.
A tatuagem como criação compartilhada
Na tatuagem, a criação acontece em diálogo com outra pessoa.
Daniel explica que cada trabalho envolve escuta, interpretação e responsabilidade, porque a imagem passa a fazer parte do corpo e da história de alguém.
Em muitos casos, uma tatuagem pode funcionar como símbolo, marco de transformação, proteção ou rito de passagem.
O desafio do artista é equilibrar o desejo do cliente com sua própria linguagem, criando algo que tenha significado para ambos.
Diferentemente de uma pintura produzida individualmente, a tatuagem exige uma negociação entre histórias, expectativas e sensibilidades. Esse encontro também faz parte da pesquisa artística de Daniel.
Arte e território
A ligação com Tijucas, Porto Belo e o litoral catarinense aparece tanto nas referências visuais quanto na forma como Daniel construiu sua trajetória.

O mar, a pesca, os animais, os barcos e a Mata Atlântica fazem parte de seu repertório pessoal e artístico.
Esses elementos não aparecem apenas como ilustração de uma paisagem. Eles integram uma experiência de território e pertencimento.
Daniel reconhece que ainda faltam espaços de exposição, encontros e iniciativas que aproximem os profissionais da região.
Para ele, uma rede mais unida pode ampliar trocas, parcerias e oportunidades de circulação, além de ajudar a população a conhecer melhor a produção artística existente perto de casa.
Construir uma carreira sem perder a própria identidade
Ao falar sobre carreira, Daniel destaca que trabalhar com arte exige prática, continuidade e disposição para atravessar momentos de dúvida.
O reconhecimento nem sempre acontece de forma rápida, e o artista precisa construir sua trajetória enquanto aprende a lidar com mercado, divulgação e sobrevivência financeira.
Ao mesmo tempo, ele defende que o desejo por retorno não deve apagar aquilo que torna o trabalho verdadeiro.
A busca por consistência, para Daniel, está diretamente relacionada à possibilidade de olhar para a própria trajetória e reconhecer nela uma escolha pessoal.
“Se eu morrer tentando fazer isso, pelo menos vou estar em paz comigo mesmo.”
A frase resume uma parte importante da entrevista: a decisão de continuar criando sem abandonar aquilo que dá sentido ao trabalho.
Sobre o Arte que Mora Aqui
Daniel Mantis foi um dos cinco artistas selecionados na primeira edição do projeto Arte que Mora Aqui — Artes Visuais, realizado por meio da PNAB 2025 Aldir Blanc, em Tijucas.
Idealizado por Danielle Celucci, o projeto foi criado para mapear, divulgar e fortalecer os artistas de Tijucas e municípios da região.
A seleção contou com a curadoria convidada de Carla Fatio e reuniu artistas de diferentes cidades, trajetórias e linguagens.
Além da premiação, os selecionados participaram de entrevistas dedicadas aos seus processos criativos e às suas experiências profissionais.
Todos os artistas inscritos também receberam feedback formativo sobre seus portfólios e apresentações, reforçando o caráter educativo da iniciativa.
Assista à entrevista completa
Na entrevista completa, Daniel Mantis fala sobre sua trajetória, processo criativo, espiritualidade, tatuagem, redes sociais, inteligência artificial e os desafios de construir uma carreira artística sem perder a própria autenticidade.
Você também é artista?
Crie gratuitamente seu perfil no portal Arte que Mora Aqui e faça parte dessa rede dedicada à produção artística e cultural da sua região.
Porque a arte não mora longe. A arte mora aqui.
Respostas