Amazônia no plural: 21 artistas colocam as poéticas femininas do Norte no centro da arte brasileira

Com 80 obras de artistas do Pará, Acre e Amazonas, “Amazônicas: Poéticas Femininas” atravessa gerações para mostrar uma produção em que território, ancestralidade, corpo, tecnologia e vida urbana dividem o mesmo espaço.

Quando a Amazônia aparece nas artes visuais, ainda é comum que floresta, natureza e paisagem dominem o imaginário. “Amazônicas: Poéticas Femininas” parte de outro lugar: quem produz as imagens desse território e quais histórias aparecem quando mulheres amazônicas passam a ocupar o centro da narrativa?

Em cartaz no CCBB Rio de Janeiro, a exposição reúne cerca de 80 obras de 21 artistas de diferentes gerações, com produções que atravessam da década de 1970 aos dias atuais. Há pintura, fotografia, escultura, gravura, objeto, videoarte, arte digital e performance. Antes de chegar ao Rio, a mostra passou por Belém, Fortaleza e Brasília.

Com curadoria de Sissa Aneleh e idealização do Museu das Mulheres (Museu DAS), o projeto não apresenta a Amazônia apenas como tema. Ela aparece como território vivido, memória, linguagem e lugar a partir do qual essas artistas constroem suas próprias questões.

Não existe uma única maneira de representar a Amazônia

Um dos aspectos mais interessantes da exposição está justamente na diversidade.

Participam artistas como Auá Mendes, Bárbara Savannah, Cristiane Martins, Diná Oliveira, Elaine Arruda, Elieni Tenório, Keila-Sankofa, Lise Lobato, Lúcia Gomes, Maria Auxiliadora Zuazo, Nina Matos, Rafa Bqueer, Rafaela Kennedy, Rafaela Moreira, Renata Aguiar, Rita Huni Kuin, Rita Loureiro, Sanchris, Val Sampaio, Wɨra Tini e Yaka Huni Kuin.

São trajetórias indígenas, afro-amazônicas, urbanas e contemporâneas que tornam difícil reduzir a produção do Norte a uma única estética.

É justamente aí que a mostra encontra força. A Amazônia não aparece como uma imagem homogênea de mata, rios e ancestralidade. Surgem também questões de gênero, identidade, afetos, espiritualidade, memória, deslocamento, ativismo e experiências urbanas.

O território permanece presente, mas deixa de funcionar apenas como cenário.

Da matéria ancestral ao corpo como arquivo

A exposição foi organizada em quatro núcleos: Materialidades Ancestrais, Gravura Feminina, Amazônia Pictórica e Performáticas.

No primeiro, a matéria carrega histórias. Cerâmicas de Lise Lobato, por exemplo, aproximam ciclos de vida, transformação e espiritualidade, enquanto as esculturas da série Revoltosas, de Cristiane Martins, articulam feminilidade, mitologias indígenas e forças simbólicas relacionadas à floresta.

Na gravura, aparecem trabalhos como os de Elieni Tenório, que investigam corpo feminino e presença social, e de Maria Auxiliadora Zuazo, cuja produção aproxima natureza, liberdade e figuras que transitam entre o humano e o simbólico.

Já no núcleo dedicado à pintura, artistas de diferentes gerações constroem suas próprias Amazônias. Memória, pertencimento, cotidiano e espiritualidade aparecem em trabalhos de nomes como Nina Matos, Rita Loureiro, Bárbara Savannah, Rafaela Moreira, Auá Mendes e Wɨra Tini.

Nas obras performáticas, o próprio corpo se torna território. As fotoperformances de Renata Aguiar aproximam mitologias e narrativas ancestrais, enquanto Keila-Sankofa trabalha memória e identidade tratando o corpo como um arquivo vivo.

Uma história da arte brasileira que ainda está sendo ampliada

Há outra camada importante na exposição: a questão geracional.

“Amazônicas” coloca lado a lado artistas precursoras e produções recentes, apresentando um percurso que começa nos anos 1970 e chega às pesquisas atuais. Isso permite perceber que a presença feminina na arte amazônica não é um fenômeno recente, embora muitas dessas trajetórias tenham permanecido pouco visíveis nas narrativas mais conhecidas da arte brasileira.

Esse talvez seja um dos pontos mais relevantes da mostra.

Ampliar a história da arte brasileira não significa apenas descobrir novos nomes. Significa também rever de onde costumamos olhar para essa história.

Durante muito tempo, grande parte da circulação institucional, crítica e comercial das artes visuais brasileiras esteve concentrada no eixo Rio-São Paulo. Quando uma exposição coloca 21 artistas amazônicas ocupando todas as salas de um andar do CCBB no Rio de Janeiro, há também um deslocamento simbólico acontecendo.

Não é a Amazônia entrando como assunto na arte produzida no Sudeste. São artistas do Norte apresentando seus próprios repertórios, questões e maneiras de construir imagem.

Tecnologia e ancestralidade não aparecem como opostos

A exposição também evita outra separação comum: aquela que coloca ancestralidade de um lado e tecnologia do outro.

Além das obras físicas, o projeto inclui uma experiência imersiva em ambiente digital, com recursos de realidade expandida e acesso ao espaço expositivo por meio do metaverso.

A presença dessas tecnologias ao lado de cerâmica, gravura, pintura e práticas vinculadas a saberes ancestrais produz uma combinação interessante.

Não há necessidade de escolher entre tradição e contemporaneidade.

A própria produção das artistas mostra que identidades amazônicas podem atravessar memória indígena, cultura urbana, performance, redes digitais, pintura e experimentações tecnológicas ao mesmo tempo.

Talvez essa seja uma maneira mais precisa de compreender a Amazônia contemporânea: não como um território parado no passado, mas como um espaço onde diferentes tempos continuam coexistindo.

Quando a Amazônia deixa de ser apenas uma imagem

“Amazônicas: Poéticas Femininas” chega ao Rio depois de circular por três outras capitais brasileiras. A mudança de território também altera a maneira como a exposição é recebida.

Em Belém, parte das obras estava mais próxima dos lugares e experiências que contribuíram para sua formação. No Rio, elas entram em um dos circuitos culturais mais visitados do país e encontram públicos que muitas vezes conhecem a Amazônia principalmente pelas imagens produzidas sobre ela.

A diferença é importante.

Porque a exposição não pede apenas que o visitante olhe para a Amazônia.

Convida a olhar a partir dela.

E quando esse ponto de vista muda, floresta, cidade, corpo, ancestralidade, tecnologia e memória deixam de ser categorias separadas. Tornam-se partes de uma produção artística muito mais ampla, contraditória e contemporânea do que qualquer imagem única conseguiria representar.

Serviço

Amazônicas: Poéticas Femininas
Curadoria: Sissa Aneleh
Local: CCBB Rio de Janeiro, 2º andar
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Visitação: até 16 de novembro de 2026
Horário: quarta a segunda, das 9h às 20h. Fechado às terças.
Entrada gratuita com retirada de ingresso pela bilheteria ou pelo site do CCBB.

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