Do açúcar ao lixo: como Vik Muniz transforma matéria comum em imagens que desafiam o olhar

Chocolate, açúcar, poeira, revistas, brinquedos, diamantes e resíduos já passaram pelas mãos de Vik Muniz. Mais do que escolher materiais improváveis, o artista brasileiro os utiliza para colocar em dúvida aquilo que pensamos estar vendo.

De longe, a imagem parece conhecida. Pode ser uma fotografia histórica, um retrato ou uma obra que já pertence ao imaginário da história da arte. Basta se aproximar para perceber que algo não está exatamente no lugar: aquilo que parecia tinta pode ser chocolate; o rosto pode ter sido construído com açúcar; uma composição monumental pode ser formada por toneladas de resíduos.

É nesse pequeno intervalo entre reconhecer uma imagem e descobrir do que ela realmente é feita que Vik Muniz construiu uma das pesquisas mais reconhecíveis da arte contemporânea brasileira.

Nascido em São Paulo, em 1961, e atualmente trabalhando entre Rio de Janeiro e Nova York, Muniz desenvolveu desde os anos 1990 um método em que materiais cotidianos são organizados para formar imagens e depois fotografados. Açúcar, terra, fios, chocolate, poeira, recortes de papel, lixo, brinquedos e até diamantes já fizeram parte desse repertório.

Primeiro a matéria, depois a fotografia

Há um detalhe importante para compreender seu trabalho: muitas vezes, aquilo que vemos em uma exposição não é a composição original feita com chocolate, açúcar ou lixo.

É a fotografia dela.

Muniz constrói uma imagem fisicamente, registra o resultado e, em diversos trabalhos, a montagem deixa de existir. A fotografia passa a ser a obra permanente de algo que teve existência temporária.

Essa operação cria uma espécie de armadilha para o olhar.

Primeiro reconhecemos a figura. Depois identificamos o material. Por fim, começamos a perceber que estamos diante de uma fotografia de uma construção que imita outra imagem.

A questão deixa então de ser simplesmente “o que estou vendo?” e passa a ser também “por que acredito tão rapidamente naquilo que uma imagem me mostra?”

É justamente a representação que interessa ao artista.

Quando açúcar também fala sobre trabalho

Uma das séries que ajudaram a projetar Vik Muniz internacionalmente foi “Sugar Children”, realizada em 1996.

O artista havia fotografado crianças de famílias que trabalhavam em plantações de cana-de-açúcar na ilha caribenha de Saint Kitts. Depois, refez os retratos espalhando açúcar granulado sobre uma superfície escura e fotografou as imagens resultantes.

O material não funciona apenas como efeito visual.

Há uma tensão entre a doçura associada ao açúcar e a realidade econômica ligada à sua produção. O retrato continua sendo delicado, mas o conhecimento de sua matéria transforma a maneira como ele é percebido.

Essa relação aparece repetidamente na produção de Muniz: o material escolhido também participa do significado da obra.

Chocolate pode lembrar prazer e consumo. Diamantes carregam ideias de riqueza e desejo. Lixo imediatamente coloca em cena descarte, excesso e aquilo que uma sociedade prefere não enxergar.

Fazer uma imagem com aquilo que foi descartado

Essa lógica alcançou uma de suas dimensões mais conhecidas na série “Pictures of Garbage”, iniciada em 2008.

Muniz trabalhou com catadores do antigo aterro de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, criando enormes retratos a partir de materiais encontrados no próprio local. Os participantes eram fotografados e depois colaboravam na construção das imagens, organizando objetos e resíduos em composições vistas de cima.

O processo foi acompanhado pelo documentário “Lixo Extraordinário” (Waste Land), dirigido por Lucy Walker, filmado durante quase três anos.

Um dos trabalhos, “Marat (Sebastião)”, recria a composição de A Morte de Marat, de Jacques-Louis David, tendo como personagem Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, liderança da associação de catadores de Jardim Gramacho.

Aqui, a troca de material altera completamente a leitura de uma imagem histórica.

No lugar do herói da Revolução Francesa, aparece um trabalhador brasileiro. No lugar da tinta, aquilo que a cidade descartou.

A história da arte passa a conversar com uma realidade social contemporânea.

Arte feita para ser vista duas vezes

Talvez por isso as obras de Vik Muniz funcionem tão bem em escalas diferentes.

De longe, o cérebro organiza os fragmentos e reconhece rapidamente a imagem.

De perto, ela se desfaz.

Aquilo que parecia um rosto volta a ser pedaço de revista, fio, grão de açúcar ou objeto descartado.

A experiência lembra que ver não é um processo neutro. Nosso olhar completa informações, reconhece padrões e cria sentido mesmo quando conhece apenas parte daquilo que está diante dele.

Muniz transforma esse mecanismo em matéria artística.

Não por acaso, sua relação com instituições internacionais é longa. O MoMA apresentou seu trabalho já em 1997 e hoje mantém dezenas de suas obras catalogadas em seu acervo. Em 2001, o artista representou o Brasil na 49ª Bienal de Veneza.

O cotidiano continua oferecendo matéria

Mesmo depois de décadas trabalhando com esse procedimento, Muniz continua encontrando novas maneiras de reorganizar materiais e imagens.

Em séries mais recentes, como “Brushstrokes”, ele fotografa pinceladas individuais, recorta essas imagens e as reorganiza digitalmente para recriar pinturas associadas a nomes como Monet, Cézanne e Van Gogh.

O princípio continua parecido, mas a matéria mudou.

O que antes podia ser açúcar ou chocolate passa a ser a própria imagem de uma pincelada.

Em 2026, sua produção voltou a ganhar destaque no Brasil com exposições como “A Olho Nu”, no CCBB Rio, e “O Rescaldo das Lembranças”, no Museu Nacional.

A continuidade dessa pesquisa talvez revele por que seu trabalho permanece atual.

Vik Muniz não transforma lixo em arte simplesmente porque lixo é um material surpreendente. Nem utiliza chocolate apenas porque chocolate é visualmente curioso.

O que ele transforma, na verdade, é a maneira como olhamos para uma imagem.

Um objeto cotidiano deixa de ser apenas objeto. Torna-se parte de um rosto, de uma paisagem ou de uma obra que acreditávamos conhecer.

E, quando finalmente reconhecemos o material, somos obrigados a olhar novamente.

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