Quando a terra deixa de ser cenário: Damiana Bregalda transforma corpo, paisagem e risco em matéria de arte

Em exposição inédita no MIS-SC, artista reúne mais de dez anos de pesquisa para investigar o que acontece quando deixamos de olhar a terra como recurso e passamos a percebê-la como território vivo.

Há uma pergunta atravessando a nova exposição de Damiana Bregalda: como habitar a Terra sem tratá-la apenas como algo que pode ser ocupado, controlado ou explorado?

É a partir dela que a artista, antropóloga e pesquisadora apresenta “Da pele à terra: percursos de pousos e riscos”, individual que abre nesta terça-feira, 6 de outubro, às 18h, no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS-SC), em Florianópolis. Com curadoria de Juliana Crispe, a mostra reúne 16 trabalhos e conjuntos realizados ao longo de mais de uma década, atravessando fotografia, performance, instalação, vídeo, monotipia, publicação de artista e experimentações sonoras. A entrada é gratuita.

Mais do que organizar diferentes momentos de sua produção, a exposição aproxima duas escalas aparentemente distantes: a pele e a paisagem.

De um lado está o corpo que sente, toca, percorre e deixa marcas. Do outro, a terra marcada por monoculturas, mineração, ocupações, memória e modos distintos de existência.

No trabalho de Damiana, porém, essas duas dimensões não permanecem separadas.

O corpo não observa a paisagem de fora

A relação entre corpo e território aparece de maneira recorrente na produção da artista.

Nas vídeo-performances “É preciso correr o risco – na pele” e “É preciso correr o risco – na terra”, por exemplo, o corpo se torna parte da investigação. Em um dos trabalhos, Damiana percorre uma área destinada à monocultura de soja em Paraí, no Rio Grande do Sul, enquanto semeia Avaxi Para’í, variedade de milho cultivada pelos Guarani.

O contraste é direto.

De um lado, a monocultura, baseada na repetição de uma única espécie e numa determinada lógica produtiva. Do outro, o gesto de introduzir uma semente associada a outras relações com cultivo, território e continuidade cultural.

A ação é pequena diante da dimensão da paisagem. E talvez esteja justamente aí sua força.

Damiana não tenta transformar simbolicamente toda aquela área. Ela introduz uma diferença.

Semear passa a funcionar tanto como ação física quanto como pergunta.

Fotografar uma folha no instante em que ela cai

Nem todos os trabalhos da exposição partem de paisagens marcadas por intervenções tão visíveis.

Um dos projetos mais antigos apresentados no MIS-SC nasce de algo quase imperceptível.

Em “Diário de pousos”, iniciado em 2013 e mostrado ao público pela primeira vez nesta exposição, a artista acompanha folhas e flores no momento em que se desprendem das árvores. Registra o lugar e o horário em que cada uma pousa e transforma esses acontecimentos mínimos em parte de uma pesquisa sobre tempo, movimento e presença.

A obra ajuda a entender a palavra “pouso” presente no título da exposição.

Não se trata simplesmente de chegar a algum lugar.

O pouso aparece como interrupção.

Parar. Observar. Permanecer algum tempo diante daquilo que normalmente passaria despercebido.

É uma lógica quase oposta à velocidade com que costumamos atravessar as paisagens.

O risco também está na paisagem

O outro termo do título é mais ambíguo.

“Risco” pode significar perigo, vulnerabilidade ou exposição. Mas também pode ser o traço que inaugura uma imagem ou o gesto de abandonar uma certeza para experimentar outra possibilidade.

É nesse sentido que os trabalhos recentes da artista se aproximam de territórios profundamente transformados pela ação humana.

A série “Ara Maí: semear em terras devastadas”, realizada durante sua pesquisa de pós-doutorado em Artes Visuais na Udesc entre 2024 e 2026, nasceu de experiências em três paisagens catarinenses: uma pedreira e uma monocultura de pinus elliottii em Florianópolis e uma área de mineração de carvão em Criciúma. A pesquisa contou com bolsa do CNPq.

São lugares muito diferentes entre si, mas unidos por uma característica: a paisagem já não pode ser entendida como natureza intocada.

Ela guarda consequências de escolhas econômicas, históricas e territoriais.

Em vez de apenas documentar esses espaços, Damiana trabalha dentro deles.

É uma mudança importante de posição. A paisagem deixa de funcionar como fundo para uma fotografia ou performance e passa a participar efetivamente da obra.

Arte diante de uma crise que não é apenas ambiental

É nesse ponto que “Da pele à terra” amplia sua discussão.

A exposição aborda crise climática, monocultura, devastação ambiental e exploração territorial, mas relaciona essas questões também às histórias de colonização, apropriação e transformação da terra em propriedade e mercadoria.

A curadoria aproxima a pesquisa de Damiana de uma perspectiva decolonial da ecologia, especialmente das discussões desenvolvidas pelo pensador Malcom Ferdinand, que relaciona crise ambiental e história colonial.

Isso muda a maneira de formular o problema.

A devastação de uma paisagem deixa de ser percebida apenas como consequência de decisões ambientais equivocadas. Passa a ser observada também como resultado de modelos históricos de ocupação, produção e poder.

A exposição não tenta resolver esse debate.

Prefere produzir situações para que ele permaneça aberto.

Arte e antropologia se encontram

Essa característica está diretamente relacionada à formação de Damiana.

Além de artista visual, ela é antropóloga e pesquisadora. É pós-doutora em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina, doutora em Artes pela UERJ, mestre em Antropologia Social e bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS. Sua produção se desenvolve justamente no encontro entre arte, antropologia e ecologia. Itapema FM

Isso ajuda a explicar por que muitos de seus trabalhos não funcionam simplesmente como objetos destinados à contemplação.

Há pesquisa de campo, deslocamento, observação, encontro com diferentes territórios e acompanhamento prolongado de determinados fenômenos.

A obra surge desse processo.

Para quem acompanha a produção contemporânea, a exposição também oferece um exemplo de como as fronteiras entre prática artística e pesquisa vêm se tornando cada vez mais permeáveis.

Uma investigação pode resultar em fotografia, publicação, áudio, performance ou instalação sem que uma linguagem precise ocupar permanentemente o centro da produção.

Uma década de pesquisa vista como um único percurso

Embora algumas das obras já tenham participado de exposições anteriores, “Da pele à terra: percursos de pousos e riscos” é inédita como conjunto.

A montagem aproxima trabalhos iniciados em 2013 de produções realizadas em 2026, permitindo perceber continuidades que talvez fossem menos evidentes quando as obras estavam separadas.

O corpo aparece repetidamente.

A semente também.

Assim como o deslocamento, a paisagem, a espera e a tentativa de perceber formas de existência que não partam apenas da experiência humana.

Há ainda uma preocupação importante da artista em reconhecer sua própria posição dentro dessas discussões. Ao abordar saberes de povos originários e comunidades tradicionais, Damiana situa-se como mulher branca e coloca sob investigação também as heranças coloniais que atravessam sua própria trajetória.

Essa posição evita que a exposição apresente outras cosmologias simplesmente como repertório visual.

O interesse está no encontro e na escuta.

Talvez a primeira ação seja parar

Há algo simples por trás da complexidade das questões levantadas pela exposição.

Antes de propor outra maneira de ocupar o mundo, é preciso conseguir observá-lo.

Essa ideia atravessa desde o acompanhamento de uma folha caindo até as performances realizadas em áreas transformadas por mineração e monocultura.

A desaceleração, nesse caso, não aparece como fuga.

Ela funciona como método.

Parar tempo suficiente para reconhecer que uma paisagem não é vazia, que uma terra guarda histórias e que nossa presença sobre ela também produz consequências.

Em um momento em que discussões sobre clima e território frequentemente chegam ao público por meio de números, mapas e previsões, Damiana Bregalda escolhe outra entrada.

Começa pela pele.

E, a partir dela, pergunta até onde vai aquilo que chamamos de corpo e onde começa aquilo que chamamos de terra.

Serviço

Da pele à terra: percursos de pousos e riscos
Artista: Damiana Bregalda
Curadoria: Juliana Crispe
Abertura: 6 de outubro de 2026, às 18h
Visitação: até 29 de novembro de 2026
Horário: terça a domingo, das 10h às 21h
Local: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS-SC), Centro Integrado de Cultura (CIC)
Endereço: Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5600, Agronômica, Florianópolis (SC)
Entrada gratuita.

Artigos Relacionados

Quando o museu reescreve a história: “Abolicionistas Brasileiras” coloca mulheres negras no centro do MNBA

“Abolicionistas Brasileiras” reúne no Museu Nacional de Belas Artes trabalhos de 40 artistas visuais que retomam as trajetórias de mulheres negras ligadas à resistência, à liberdade e ao processo abolicionista brasileiro.
Ao colocar produção contemporânea em diálogo com o acervo histórico do MNBA, a exposição discute não apenas quem participou da construção do país, mas também quem ganhou imagens, registros e permanência dentro da memória e da história da arte brasileira.

Respostas

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

});