Da Movida ao algoritmo: exposição em Porto Alegre mostra como a arte espanhola reinventou sua rebeldia no digital

Código, inteligência artificial, videogames, glitch e modelagem 3D atravessam “La Movida Digital”, mostra que reúne seis artistas espanhóis e aproxima a memória cultural dos anos 1980 das novas formas de produzir imagens.

O que pode existir em comum entre a explosão cultural vivida pela Espanha nos anos 1980 e uma obra criada hoje com algoritmos, inteligência artificial ou modelagem 3D?

A exposição “La Movida Digital: Arte digital espanhola na coleção zardoz.club”, que abre em 22 de outubro, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, parte justamente dessa aproximação. Integrando a 11ª edição do Festival Kino Beat, a mostra reúne seis artistas espanhóis que utilizam tecnologias digitais não apenas como ferramentas, mas como parte da própria linguagem artística.

São trabalhos de Anna Carreras, Elena Juárez, Jordi Sala Serra (Poperbu), Raúl Berrueco (Entter), Sergio Valdivieso (gozo) e Víctor Arce, com curadoria de Tales Tommasini e Gabriel Cevallos.

Entre as obras aparecem código generativo, imagens produzidas por algoritmos, glitches, videogames, inteligência artificial e ambientes construídos digitalmente. O resultado ajuda a enxergar uma produção que já não cabe muito bem na ideia de que arte digital é apenas uma imagem criada no computador.

Da Movida Madrileña para a cultura digital

O título da exposição não é casual.

La Movida Madrileña ficou conhecida como um período de intensa transformação cultural vivido pela Espanha após o fim da ditadura franquista. Durante os anos 1980, música, cinema, moda e artes visuais foram atravessados por uma geração interessada em liberdade, experimentação e ruptura.

Foi também naquele período que computadores pessoais e videogames começaram a ocupar o cotidiano.

Grande parte dos artistas reunidos agora em Porto Alegre nasceu entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Cresceu, portanto, no rastro dessa transformação e também acompanhou a passagem de uma cultura predominantemente analógica para outra cada vez mais mediada por telas, softwares e redes.

A exposição propõe que algo daquela vontade de experimentar continua presente.

Só que o território mudou.

Em vez de fanzines, clubes noturnos e fitas VHS, aparecem pixels, arquivos digitais, ferramentas generativas e ambientes virtuais.

A Espanha continua dentro da imagem?

Uma das questões mais interessantes da mostra surge justamente da aparente ausência de fronteiras da cultura digital.

Se um arquivo pode circular instantaneamente entre Barcelona, Porto Alegre, Tóquio ou Nova York, ainda faz sentido falar em uma arte digital espanhola?

“La Movida Digital” não tenta responder de maneira definitiva.

Em algumas obras, aparecem referências à luz mediterrânea, à aridez, ao mar e à paisagem espanhola. Em outras, predominam linguagens visuais reconhecíveis em qualquer lugar conectado à internet.

Essa tensão entre origem e circulação global atravessa toda a exposição.

Ela também toca em uma questão cada vez mais presente na arte contemporânea: a tecnologia pode ser global, mas os artistas que a utilizam continuam carregando memórias, repertórios e experiências locais.

Um algoritmo pode executar instruções semelhantes em qualquer computador.

O que fazer com ele ainda é uma escolha artística.

Quando o erro também vira estética

A exposição é organizada em torno de dois grandes caminhos: abstração e figuração digital.

De um lado, aparecem formas, cores, geometrias e imagens produzidas por sistemas generativos. Do outro, personagens, objetos e paisagens são reconstruídos, deformados ou deslocados pelo ambiente digital.

O chamado glitch, por exemplo, transforma aquilo que normalmente seria entendido como falha tecnológica em linguagem visual.

Víctor Arce trabalha justamente com elementos associados aos primeiros anos da internet, como janelas, cursores, gráficos digitais e erros de tela, aproximando nostalgia tecnológica, colagem e ambientes imaginários. Já outras pesquisas presentes na mostra incorporam inteligência artificial generativa e modelagem 3D aos processos de criação.

O interesse, portanto, não está apenas na novidade da ferramenta.

Está em perceber o que cada artista consegue fazer quando deixa de tratar a tecnologia como efeito especial e passa a utilizá-la para pensar a própria imagem.

Uma coleção digital começa a ocupar espaços físicos

“La Movida Digital” apresenta também parte do acervo da zardoz.club, projeto criado em 2020 pelo curador gaúcho-espanhol Tales Tommasini.

A iniciativa começou como uma plataforma de curadoria e exposições virtuais voltada à arte digital. A partir de 2025 passou a realizar exposições físicas itinerantes entre Madri e Barcelona e, em 2026, inaugura seu primeiro espaço expositivo em Porto Alegre.

O percurso é significativo.

Durante anos, uma das grandes discussões em torno da arte digital esteve relacionada justamente ao lugar onde essas obras poderiam existir: na tela, na internet, em coleções virtuais ou dentro de museus e galerias?

Hoje, essas fronteiras estão cada vez menos definidas.

Uma obra pode nascer em código, circular pelas redes, integrar uma coleção digital e, algum tempo depois, ocupar fisicamente uma sala de exposição.

A tecnologia já deixou de ser apenas tema

A presença da mostra no Kino Beat faz sentido dentro dessa transformação.

Criado em 2009, o festival foi ampliando sua atuação e atualmente reúne propostas ligadas a imagem, som, performance, música experimental, artes visuais e tecnologias emergentes. A 11ª edição acontece de forma descentralizada entre setembro e dezembro em diferentes espaços de Porto Alegre.

“La Movida Digital” entra nesse contexto não apenas como uma exposição sobre tecnologia.

Ela mostra algo que talvez seja mais importante: a tecnologia já se tornou parte cotidiana dos materiais disponíveis para um artista.

Tintas, câmeras e papel continuam existindo.

Mas agora convivem com código, banco de dados, softwares, sistemas generativos, modelos 3D e inteligência artificial.

A pergunta interessante deixa de ser simplesmente se isso pode ou não ser arte.

Passa a ser outra: o que os artistas conseguem imaginar com essas ferramentas que ainda não conseguimos prever?

Serviço

La Movida Digital: Arte digital espanhola na coleção zardoz.club
11º Festival Kino Beat
Abertura: 22 de outubro de 2026, às 18h
Visitação: até 29 de novembro
Horário: terça a domingo, das 10h às 19h
Local: Galeria Augusto Meyer – IEAVi, 3º andar da Casa de Cultura Mario Quintana
Endereço: Rua dos Andradas, 736, Centro Histórico, Porto Alegre (RS)
Entrada gratuita.

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