Antes dos murais: exposição revela como Portinari desenhou uma ideia de Brasil moderno
No próprio Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, nove estudos de Candido Portinari revelam os caminhos que deram origem aos monumentais “Ciclos Econômicos Brasileiros” e mostram como trabalho, arquitetura e arte se encontraram na construção visual de um país que buscava ser moderno.
Antes de ocuparem as paredes do Palácio Gustavo Capanema em escala monumental, os trabalhadores pintados por Candido Portinari existiram como desenhos, estudos de composição e experiências preparatórias.
É justamente esse momento anterior à obra definitiva que a exposição “Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema” coloca diante do público. Aberta à visitação desde 2 de outubro, no Centro do Rio de Janeiro, a mostra reúne nove trabalhos de grandes dimensões relacionados à criação da série Ciclos Econômicos Brasileiros.
A escolha do local torna a experiência especialmente interessante: os estudos estão expostos no mesmo edifício para o qual foram concebidos.
Quando o processo volta para perto da obra
Produzida entre o final dos anos 1930 e a década de 1940, a série Ciclos Econômicos Brasileiros é formada por doze pinturas que percorrem atividades fundamentais na construção econômica do país, da exploração do pau-brasil à produção de açúcar, café, ouro, fumo, algodão, borracha e carnaúba.
Mas Portinari não coloca mercadorias no centro dessas imagens.
Coloca pessoas.
Homens e mulheres aparecem carregando pesos, plantando, colhendo, transportando e manipulando ferramentas. São corpos ampliados, mãos fortes e figuras que ocupam boa parte das composições.
A história econômica brasileira é apresentada, portanto, por meio de quem realizou fisicamente esse trabalho.
Esse deslocamento ajuda a compreender por que os murais se tornaram um dos conjuntos mais importantes da produção de Portinari. Eles não funcionam apenas como registro de diferentes atividades econômicas. Também constroem uma determinada imagem de Brasil.
O que vemos quando a obra ainda não está pronta
Os trabalhos preparatórios apresentados na exposição permitem observar algo que normalmente desaparece quando encontramos uma pintura concluída: as decisões do artista.
Proporções mudam. Figuras são organizadas. Gestos precisam funcionar dentro de grandes superfícies. O desenho passa a servir não apenas como registro, mas como ferramenta para solucionar problemas de escala e composição.
Parte desses estudos foi utilizada por Portinari e seus assistentes durante a transferência das imagens para as paredes. Vistos ao lado dos murais definitivos, eles aproximam o visitante do processo que antecedeu a pintura monumental.
Para quem trabalha com arte, talvez essa seja uma das partes mais interessantes da exposição.
Portinari aparece menos como o autor de uma obra já consagrada e mais como um artista diante de problemas concretos: como distribuir dezenas de figuras, como transformar um desenho em mural e como fazer uma imagem funcionar dentro de uma arquitetura específica.
Arte e arquitetura pensadas juntas
O Palácio Gustavo Capanema também faz parte dessa história.
Marco da arquitetura moderna brasileira, o edifício foi projetado por uma equipe que reuniu nomes como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, com consultoria de Le Corbusier. O conjunto incorporou ainda trabalhos de Portinari, Roberto Burle Marx, Bruno Giorgi e outros artistas.
A ideia era que pintura, escultura, paisagismo e arquitetura não fossem elementos isolados.
Fizessem parte de um mesmo projeto moderno.
É por isso que apresentar esses estudos novamente dentro do Capanema produz algo que uma exposição convencional dificilmente conseguiria repetir. O visitante pode observar o desenho preparatório e, ao mesmo tempo, compreender a relação que aquela imagem teria com a escala, os espaços e a arquitetura do edifício.
O processo e o resultado voltam a ocupar o mesmo lugar.
Que Brasil era esse?
Há ainda uma questão que torna a mostra atual quase noventa anos depois.
Os murais foram produzidos em um período em que artistas, arquitetos e intelectuais discutiam intensamente como representar uma identidade brasileira moderna.
Portinari respondeu colocando o trabalhador no centro.
Hoje, observar essas imagens permite não apenas admirar seu domínio técnico, mas também perguntar qual ideia de país estava sendo construída ali.
Quem aparece nessa narrativa? Que atividades são escolhidas para contar a formação brasileira? Como trabalho, desenvolvimento e modernização foram transformados em imagem?
A exposição não precisa oferecer respostas definitivas para que essas perguntas permaneçam relevantes.
O próprio Palácio Capanema, reaberto ao público em 2025 após um amplo processo de restauração, funciona agora como cenário para esse reencontro entre patrimônio e presente.
Portinari antes de Portinari
Quando uma obra se torna histórica, muitas vezes esquecemos que ela começou como tentativa.
Esse talvez seja o melhor motivo para visitar “Portinari e o Brasil Moderno”.
Os nove trabalhos apresentados devolvem alguma incerteza a um conjunto que hoje parece definitivo.
Antes do mural, existiu o desenho.
Antes da imagem monumental, houve composição, correção e escolha.
E antes de se tornar um dos grandes símbolos do modernismo brasileiro, aquele Brasil pintado por Portinari precisou primeiro ser imaginado.
Serviço
Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema
Curadoria: Rafael Peixoto e Marcus Lontra
Concepção e curadoria institucional: João Paulo Balsini
Visitação: até 12 de novembro de 2026
Horário: terça a domingo, das 9h às 17h
Local: Salão Portinari, 2º andar do Palácio Gustavo Capanema
Endereço: Centro do Rio de Janeiro
Entrada gratuita.
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