Patrimônio que gera futuro: prêmio nacional reconhece 18 iniciativas que transformam saberes em trabalho e renda
Da tecelagem indígena ao rap, da culinária tradicional ao trabalho das trancistas, a 39ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade mostra que preservar patrimônio também pode significar criar autonomia, formação profissional e novas possibilidades de futuro.
O que uma casa de farinha, uma batalha de rap, uma técnica ancestral de tecelagem e o trabalho de uma trancista podem ter em comum?
Na edição de 2026 do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, todos aparecem como parte de uma discussão mais ampla sobre patrimônio cultural: conhecimentos e práticas continuam vivos quando existem pessoas capazes de transmiti-los, mas também quando há condições para que essas atividades façam parte da vida econômica das comunidades.
Promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1987, o prêmio chegou à 39ª edição com o tema “Patrimônio Criativo: Inclusão Produtiva, Trabalho e Renda”. Foram selecionadas 18 iniciativas realizadas entre 2023 e 2025, que receberão R$ 40 mil cada, totalizando R$ 720 mil em premiações.
Um recorde de projetos inscritos
A edição de 2026 registrou 950 inscrições, o maior número da história do prêmio.
Dessas, 904 foram habilitadas e avaliadas pelas comissões estaduais. Depois, 182 chegaram à etapa nacional, 32 foram escolhidas como finalistas e 18 receberam a premiação.
Mais do que revelar a concorrência, os números ajudam a mostrar a quantidade de iniciativas espalhadas pelo país que trabalham com patrimônio fora das estruturas mais tradicionais de museus e grandes instituições.
Entre as selecionadas estão projetos de formação de artesãos, beneficiamento de alimentos, criação de marcas coletivas, turismo de base comunitária, festivais culturais e transmissão de conhecimentos tradicionais.
Quando preservar também significa vender, ensinar e formar
Uma das iniciativas vencedoras é Nukun Mimã Xarabu: Fortalecendo a Cultura Huni Kuĩ, conduzida pela mestra Judite Carlos da Silva Freitas, no Acre.
O projeto trabalha com a transmissão dos kenês, grafismos do povo Huni Kuĩ reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil. Oficinas realizadas em terras indígenas reuniram conhecimentos de desenho, fiação, tecelagem, cerâmica e cestaria. Cerca de 130 pessoas participaram das atividades, principalmente mulheres, e parte das peças produzidas passou também a ser comercializada.
No Amazonas, a Casa de Frutas Íwaita Ruka encontrou outra maneira de aproximar patrimônio e economia.
A iniciativa beneficia alimentos cultivados nas roças indígenas, como banana, abacaxi e tucumã, produzindo frutas desidratadas, farinha, polpas e geleias. Além de diminuir as perdas causadas pelas distâncias e pela rápida deterioração dos produtos, a atividade ampliou possibilidades de venda no comércio local, no turismo comunitário e até na alimentação escolar.
Nos dois casos, preservar não significa congelar uma prática no passado.
Significa criar condições para que ela continue existindo.
O patrimônio também está nas periferias urbanas
Outra característica importante desta edição é a presença de práticas culturais que nem sempre aparecem imediatamente quando pensamos em patrimônio.
Em Brasília, o Projeto RAP: Ressocialização, Autonomia e Protagonismo trabalha com jovens de escolas públicas, unidades socioeducativas e espaços comunitários.
Rap, grafite, break e conhecimentos ligados aos DJs são tratados como patrimônio cultural das periferias. Entre 2023 e 2025, o projeto realizou mais de 120 atividades, alcançou cerca de 800 jovens diretamente e estimulou a produção de mais de 60 músicas autorais.
Já em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, o Festival Trançar é Esperançar parte do ofício das trancistas como patrimônio cultural afro-brasileiro.
A programação combina capacitação técnica, discussões sobre relações raciais, concursos e formação para geração de renda. Mais de mil mulheres passaram por cursos e oficinas, e algumas participantes abriram seus próprios negócios depois das formações.
São iniciativas que ampliam uma pergunta fundamental: quem decide o que merece ser reconhecido como patrimônio?
Comunidades tradicionais ocupam parte importante da seleção
Os dados divulgados pelo Iphan ajudam a compreender o perfil dos vencedores.
72% das iniciativas premiadas foram realizadas por, com ou para povos e comunidades tradicionais. Treze das 18 ações acontecem em municípios do interior e sete estão localizadas em cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal.
Também chama atenção o perfil dos proponentes: 89% dos projetos premiados foram apresentados por pessoas pretas, indígenas ou pardas. Doze das 18 ações pertencem à categoria de cooperativas, associações, grupos ou coletivos não formalizados.
Isso reforça uma característica desta edição: grande parte do patrimônio reconhecido está sendo mantida diretamente pelas comunidades que carregam esses conhecimentos.
Cozinhar também pode preservar memória
Em Paraty, no Rio de Janeiro, o coletivo Cozinha das Tradições reúne 63 cozinheiras e cozinheiros de 14 comunidades caiçaras, indígenas e quilombolas.
Durante um encontro internacional realizado em 2024, o grupo preparou 12.700 refeições a partir de 70 receitas tradicionais, utilizando ingredientes da agricultura familiar e da pesca artesanal e instrumentos como pilão e tipiti.
A cozinha aparece aqui não apenas como serviço ou gastronomia.
Receitas, modos de preparo, ingredientes, utensílios e formas de organização comunitária funcionam como arquivos de conhecimento.
É um exemplo especialmente claro de como patrimônio imaterial pode sobreviver porque continua sendo praticado.
O prêmio também olha para quem está longe dos grandes centros
Pela primeira vez, iniciativas realizadas em municípios localizados na Faixa de Fronteira brasileira receberam pontuação adicional durante a avaliação.
A medida buscou ampliar a presença de projetos realizados fora das áreas historicamente mais concentradas do circuito cultural. Quatro das ações vencedoras deste ano estão nesses territórios.
Os critérios de avaliação também foram além da preservação em sentido estrito. O edital considerou relevância cultural, diversidade e representatividade, dimensão educativa, resultados alcançados, transmissão de conhecimentos entre gerações e capacidade de movimentar a economia local.
Patrimônio não é apenas aquilo que permanece
Talvez a principal contribuição desta edição esteja justamente em deslocar a ideia de patrimônio.
Um patrimônio cultural não sobrevive apenas porque foi reconhecido oficialmente, registrado ou documentado.
Ele precisa continuar sendo realizado.
Alguém precisa aprender a modelar aquela cerâmica, tocar aquele instrumento, preparar aquela receita, executar aquela dança, desenhar aquele grafismo ou dominar determinado ofício.
E essa continuidade também depende de condições materiais.
Ao colocar trabalho, remuneração, formação e geração de renda no centro da premiação, o Prêmio Rodrigo aponta para uma questão que muitas políticas de preservação precisam enfrentar: não basta reconhecer um saber se as pessoas responsáveis por mantê-lo não conseguem continuar vivendo dele.
Nesse sentido, preservar o passado pode ser também uma forma de construir futuro.
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