Djeka: arte sacra, restauração e memória cultural em Santa Catarina

Em entrevista ao Arte que Mora Aqui, a artista nascida em Nova Trento e residente em Itapema fala sobre sua trajetória, o restauro, a fé e a preservação da história regional.

Maria José Montibeller Dalri, conhecida artisticamente como Djeka, é artista plástica, restauradora, artesã e educadora. Nascida e criada em Nova Trento, em Santa Catarina, e atualmente residente em Itapema, ela construiu uma trajetória de mais de 30 anos dedicada à pintura, ao artesanato, à arte sacra, ao restauro e à valorização da memória cultural da região.

Selecionada pelo projeto Arte que Mora Aqui, realizado por meio da PNAB 2025 Aldir Blanc – Tijucas/SC, Djeka foi uma das artistas premiadas na primeira edição da iniciativa, que busca mapear, valorizar e dar visibilidade aos artistas da região.

Na entrevista conduzida por Danielle Celucci, idealizadora do projeto, com participação da curadora convidada Carla Fatio, Djeka compartilhou lembranças de sua caminhada, falou sobre o início de sua relação com a arte e refletiu sobre a importância de preservar obras, histórias e símbolos que fazem parte da identidade cultural catarinense.

Como a arte entrou na vida de Djeka

A conversa começou com uma pergunta simples, mas essencial: como a arte entrou em sua vida?

Djeka respondeu que a arte surgiu de forma muito ligada à educação. Foi como professora de artes, em Nova Trento, que ela começou a desenvolver projetos com crianças, envolvendo pintura, teatro, dança, escultura e música.

Segundo a artista, o primeiro contato mais forte com as artes visuais veio dentro da escola:

“A arte entrou na minha vida quando me tornei professora de artes, aqui em Nova Trento, onde eu nasci.”

Ela contou que começou pintando os muros da escola junto com os alunos, criando um espaço mais bonito, acolhedor e aberto para a criatividade das crianças. A proposta cresceu, chamou a atenção da comunidade e revelou para Djeka uma vocação que ultrapassaria a sala de aula.

“Surgiu da vontade de pintar os muros da escola, de deixar registrado com as crianças uma escola mais bonita, mais aconchegante.”

Esse gesto inicial já carregava algo que seguiria presente em toda a sua trajetória: a arte como registro, pertencimento e vínculo comunitário.

Artesanato, comunidade e a criação da ANART

Depois dos projetos escolares, Djeka passou a se envolver também com o artesanato local. Ao perceber a importância turística e cultural de Nova Trento, ela viu a necessidade de fortalecer a produção artesanal da cidade.

Foi nesse contexto que participou da criação da ANART — Associação Neotrentina de Artesanato, reunindo artistas e artesãos da comunidade para valorizar o artesanato neotrentino.

Na entrevista, ela relembra:

“O foco principal foi divulgar e resgatar o artesanato neotrentino.”

A iniciativa deu origem à Casa do Artista Artesão, no bairro de Vígolo, em Nova Trento, espaço que funcionou durante anos e ajudou a dar visibilidade ao trabalho de artesãos locais.

Essa fase mostra uma dimensão importante da trajetória de Djeka: sua atuação artística sempre esteve ligada ao coletivo. Além de criar, ela organizou, ensinou, reuniu pessoas e abriu caminhos para que outras produções também fossem vistas.

O início no restauro: quando o valor emocional vem antes do valor material

Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Djeka falou sobre sua entrada no universo da restauração.

Carla perguntou sobre esse caminho e sobre como foi o início do trabalho com restauro.

Djeka contou que tudo começou com pequenos objetos levados por pessoas da comunidade. Muitas vezes, não eram peças de grande valor financeiro, mas carregavam uma importância afetiva profunda.

“Não era propriamente o valor físico do objeto, mas o valor emocional.”

A partir daí, ela passou a buscar formação, cursos e especializações em restauração. Começou com peças pequenas e, pouco a pouco, foi sendo chamada para restaurar obras maiores, inclusive em igrejas e espaços religiosos.

Esse percurso revela uma característica muito forte de sua prática: o cuidado. Para Djeka, restaurar exige responsabilidade, estudo e respeito pela essência da obra original.

“Quando você restaura, você tem que ter o cuidado de deixar a essência da obra preservada.”

A fala resume bem o modo como ela compreende o restauro: uma intervenção que não apaga o tempo, mas tenta devolver dignidade ao que já possui história.

Arte sacra, fé e o território de Nova Trento

A conexão de Djeka com a arte sacra está profundamente ligada ao território onde nasceu. Nova Trento é uma cidade marcada pela religiosidade, pela imigração trentino-italiana e pela presença de importantes santuários, como o Santuário Santa Paulina e o Santuário Nossa Senhora do Bom Socorro.

Durante a entrevista, Danielle observou essa relação e perguntou de onde vinha a força espiritual presente em sua produção.

Djeka respondeu que essa influência vem do próprio entorno:

“Ela vem do entorno, com certeza. Onde eu nasci, a localidade de Nova Trento tem uma cultura religiosa muito forte.”

Essa fala revela a dimensão afetiva e simbólica que Nova Trento ocupa em sua vida. Para a artista, a cultura religiosa, especialmente a tradição católica da cidade, influenciou diretamente sua pesquisa e sua prática artística.

Um dos murais feitos por Djeka em Nova Trento, SC. Foto:Arquivo pessoal de Djeka.

A arte sacra, em seu trabalho, aparece como forma de memória, fé e identidade. Suas pinturas e restaurações não se limitam à dimensão estética: elas estão ligadas à devoção, à história das famílias, às promessas, aos milagres e às narrativas que atravessam gerações.

Restaurar uma obra que já tem história

Em outro momento da entrevista, Danielle propôs uma reflexão importante:

“Como é trabalhar com algo que já tem uma história, mesmo antes de você chegar?”

Djeka destacou que, ao restaurar, a primeira atitude é reconhecer que aquela peça é única. Ela não pode ser tratada como algo comum, porque carrega memória, autoria, técnica e significado para uma comunidade.

Nos murais de Nova Trento criados por Djeka, a artista retrata a história de Santa Paulina no Santuário Santa Paulina, um dos principais destinos de turismo religioso do Brasil.
Foto: Arquivo pessoal de Djeka.

A artista falou sobre a necessidade de compreender a obra antes de intervir, respeitando os materiais, a técnica original e o sentido cultural do objeto ou da pintura.

Essa visão aproxima o trabalho de Djeka de uma prática de preservação cultural. O restauro, nesse caso, não é apenas uma técnica. É uma forma de cuidado com o tempo.

Murais, memória pública e história regional

Além da arte sacra e do restauro, Djeka também se destaca pela criação de murais históricos em espaços públicos e religiosos. Suas obras narram histórias de imigração, fé, devoção e formação comunitária.

Durante a conversa, Danielle chamou atenção para a importância desses murais como registros da memória coletiva:

“Você registra a história do povo nos murais.”

A partir dessa observação, a entrevista trouxe uma reflexão sobre a preservação dessas obras e sobre o papel da comunidade no cuidado com a arte pública.

Djeka foi direta ao apontar um caminho: educação.

“É uma questão de educação. A gente precisa trabalhar mais com as escolas públicas, mostrando o quanto esse trabalho é importante para a nossa cultura.”

Para ela, o cuidado com a arte e com a memória deve começar cedo. Quanto menor a criança, maior a possibilidade de formar um olhar sensível para o patrimônio cultural da cidade.

Essa fala dialoga diretamente com um dos grandes desafios das artes visuais em Santa Catarina: criar não apenas obras, mas também público, consciência e pertencimento.

A importância do Arte que Mora Aqui para artistas da região

A entrevista também abordou a participação de Djeka no projeto Arte que Mora Aqui. A iniciativa nasceu em Tijucas com o objetivo de mapear artistas da região, premiar trajetórias e criar uma plataforma digital de visibilidade para a produção artística local.

Djeka destacou a importância do projeto para artistas que, muitas vezes, desenvolvem trabalhos relevantes, mas ainda têm pouca visibilidade pública.

Ao longo da conversa, ela reconheceu o papel da iniciativa como uma oportunidade de registro e valorização.

O Arte que Mora Aqui busca justamente aproximar artistas, público, instituições e território, criando um acervo digital acessível e uma rede de artistas da região.

No caso de Djeka, sua participação evidencia a importância de registrar trajetórias que já contribuíram intensamente para a memória cultural de Santa Catarina.

Uma artista que une fé, história e comunidade

A trajetória de Djeka mostra como a arte pode se manifestar de muitas formas: na sala de aula, no muro da escola, na pintura em tela, no artesanato, na restauração de uma imagem religiosa, em um mural histórico ou em um projeto comunitário.

Sua produção atravessa Nova Trento, Itapema e outros municípios catarinenses, sempre com uma relação profunda com a memória, a espiritualidade e a cultura local.

Mais do que criar obras, Djeka ajuda a preservar histórias. Sua entrevista no Arte que Mora Aqui revela uma artista comprometida com aquilo que permanece: a fé, o cuidado, o território e a lembrança de um povo.

Assista à entrevista completa com Djeka

A entrevista completa com Djeka está disponível no canal do Arte que Mora Aqui no YouTube.

Assista para conhecer sua trajetória, sua relação com a arte sacra, o restauro e a preservação da memória cultural catarinense. Siga a Djeka no Instagram no perfil: @artistaplasticadjeka ou no site do Arte Que Mora Aqui.

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Respostas

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  1. Entrevista sensível, real e que nos comunica o processo e emponderamento de uma artista que buscou e consagrou seu lugar no campo das artes! Parabéns !!!

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