O mercado de arte está se recuperando, mas para quem?

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Os grandes leilões voltaram a movimentar bilhões em 2026. Para quem acompanha a carreira de artistas emergentes, porém, a pergunta mais importante talvez esteja em outro lugar: quando o mercado de arte cresce, quem realmente sente essa recuperação?

Em uma sala de leilões, a recuperação do mercado de arte pode parecer quase física.

Há obras históricas nas paredes, telefones ocupados, compradores disputando lotes e cifras que sobem em poucos segundos. O martelo desce. Algumas dezenas de milhões de dólares trocam de mãos. No dia seguinte, a manchete parece simples: o mercado de arte voltou.

Os números do primeiro semestre de 2026 dão algum fundamento a esse entusiasmo. Christie’s, Sotheby’s e Phillips movimentaram juntas cerca de US$ 6,8 bilhões em leilões globais, crescimento de aproximadamente 70% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foi o melhor primeiro semestre desde 2022.

Leilão de arte da Sotheby's durante temporada recente de vendas
Leilões das grandes casas voltaram a apresentar forte crescimento em 2026. Foto: cortesia Sotheby’s. Fonte: The Art Newspaper.

O problema começa quando esses bilhões são transformados em uma frase genérica sobre a saúde do mercado.

Porque o mercado de arte não se recupera como uma maré que levanta todos os barcos ao mesmo tempo.

Ele é feito de mercados diferentes, conectados entre si, mas capazes de viver momentos econômicos completamente distintos.

A obra de milhões e o artista tentando vender a primeira

Imagine duas cenas acontecendo na mesma semana.

Em Nova York ou Londres, uma obra de um artista consagrado entra em disputa entre colecionadores internacionais. Ela já possui décadas de exposição, publicações, procedência documentada, museus, críticos, galerias e vendas anteriores construindo sua reputação.

Em outra cidade, um artista contemporâneo envia mensagens para possíveis compradores, publica seu trabalho nas redes sociais, paga para participar de uma exposição, tenta conseguir representação e calcula se consegue produzir a próxima série.

As duas situações fazem parte daquilo que chamamos de mercado de arte.

Economicamente, porém, quase parecem pertencer a universos diferentes.

Essa diferença fica mais clara quando entendemos uma divisão básica que aparece pouco nas conversas entre artistas: mercado primário e mercado secundário.

Onde o artista vende e onde a obra é revendida

O mercado primário acontece quando uma obra é comercializada pela primeira vez. É o território em que atuam artistas, galerias que os representam, feiras, espaços independentes e vendas realizadas diretamente ao colecionador.

É também nesse território que uma carreira começa a ganhar preço, público, histórico de exposições e compradores.

Já o mercado secundário começa quando uma obra que já pertenceu a alguém volta a ser vendida. Casas de leilão como Sotheby’s, Christie’s e Phillips são algumas das estruturas mais visíveis desse mercado.

Quando uma pintura histórica alcança dezenas ou centenas de milhões de dólares em um leilão, quem está vendendo normalmente não é o artista. Muitas vezes estamos diante de uma coleção particular, de um espólio ou de uma obra que já passou por diferentes proprietários.

É por isso que um recorde em leilão pode ser importantíssimo para compreender patrimônio, colecionismo e valorização de determinados nomes sem representar, necessariamente, uma melhora na renda dos artistas que hoje estão tentando construir carreira.

Os números cresceram. Só que cresceram de maneiras diferentes.

O relatório global da Art Basel e UBS ajuda a enxergar essa fragmentação.

Em 2025, o mercado mundial de arte voltou a crescer depois de dois anos de retração e alcançou aproximadamente US$ 59,6 bilhões. Foi uma alta de 4%.

Quando abrimos esse número, porém, aparecem velocidades diferentes.

As vendas públicas em leilões cresceram cerca de 9%. O setor de galerias e dealers avançou apenas 2%.

No topo dos leilões, a diferença foi ainda maior: o valor das obras vendidas acima de US$ 10 milhões aumentou 30% em 2025.

Grandes coleções colocadas no mercado contribuíram para esse movimento. Obras com procedência sólida, nomes históricos e qualidade reconhecida voltaram a atrair compradores dispostos a gastar muito.

O levantamento do Bank of America sobre o mercado norte-americano encontrou movimento semelhante. Depois de uma primeira metade de 2025 ainda fraca, grandes coleções particulares ajudaram a impulsionar os leilões no segundo semestre. As vendas anuais analisadas subiram 23%.

Os compradores pareciam novamente dispostos a comprar, mas não necessariamente qualquer coisa.

Os resultados mais fortes apareceram entre nomes históricos e obras consideradas excepcionais. No contemporâneo e no chamado Young Contemporary, os preços médios continuaram mais pressionados.

Existe uma palavra recorrente nos relatórios recentes: qualidade.

Na prática, ela costuma vir acompanhada de outras: procedência, raridade, reconhecimento histórico, exposições importantes, publicações, trajetória institucional.

Para quem está começando, é uma informação relevante. O dinheiro pode ter voltado a circular em determinadas partes do mercado sem que a disposição para assumir riscos com artistas ainda pouco conhecidos tenha retornado na mesma velocidade.

No meio do caminho existe uma galeria

Entre o artista trabalhando no ateliê e a obra milionária reaparecendo décadas depois em um leilão existe uma infraestrutura que raramente aparece nas manchetes.

Alguém precisa acompanhar uma carreira.

Montar exposições. Produzir catálogos. Levar obras para feiras. Apresentar artistas a curadores. Criar relações com colecionadores. Fotografar trabalhos. Armazená-los. Transportá-los. Financiar meses em que uma exposição vende pouco ou nada.

Grande parte desse trabalho historicamente foi realizado pelas galerias do mercado primário.

E é justamente aí que a recuperação recente começa a parecer menos confortável.

Em 2025, os custos operacionais dos dealers pesquisados pela Art Basel e UBS aumentaram, em média, cerca de 5%. As vendas cresceram apenas 2%.

Quase um terço relatou queda nas vendas, e 38% disseram ter terminado o ano com rentabilidade inferior à de 2024.

Há uma nuance importante: as galerias menores não caminharam todas na mesma direção. Dealers com faturamento inferior a US$ 500 mil chegaram a registrar crescimento médio de dois dígitos. Já negócios intermediários, com faturamento entre US$ 1 milhão e US$ 10 milhões, tiveram leve retração.

Essa diferença diz bastante sobre o momento atual.

Às vezes, ser grande oferece escala. Ser muito pequeno permite flexibilidade.

O espaço intermediário pode carregar justamente os custos de uma estrutura profissional sem possuir o volume financeiro das grandes galerias globais.

Uma galeria fecha enquanto os leilões comemoram

Em agosto de 2026, a londrina Sid Motion Gallery anunciou que encerrará suas atividades depois de uma década.

Sid Motion em sua galeria em Londres
Sid Motion decidiu encerrar sua galeria londrina depois de dez anos de atividade. Foto: Luke Fullalove. Fonte: The Art Newspaper.

Seria tentador transformar o caso em símbolo de colapso.

A própria história impede essa simplificação.

Motion afirmou que decidiu fechar enquanto o programa e as finanças ainda estavam preservados. A galeria, criada em 2016 e conhecida pelo trabalho com artistas emergentes e em meio de carreira, terminará sua trajetória depois de 85 exposições.

Talvez seja justamente isso que torne o caso significativo.

Não estamos olhando apenas para uma empresa que deixou de conseguir pagar suas contas. Estamos olhando para uma profissional que observou a economia do modelo e decidiu sair antes que a manutenção da estrutura comprometesse aquilo que queria oferecer aos artistas.

Espaço físico, equipe, transporte, participação em feiras, montagem de exposições e desenvolvimento de carreira custam dinheiro durante todo o ano.

Uma venda milionária em uma sala de leilões não paga automaticamente nenhuma dessas contas.

O mercado pode estar melhor sem estar melhor para você

Essa talvez seja a parte mais importante para artistas brasileiros.

Quando lemos que “o mercado de arte cresceu”, é preciso perguntar imediatamente: qual mercado?

O mercado de obras acima de US$ 10 milhões?

O mercado de artistas modernos já consolidados?

O mercado de galerias que trabalham com artistas vivos?

As feiras?

Os leilões online?

A venda direta pelo Instagram ou pelo próprio site?

Todos fazem parte de um mesmo ecossistema, mas nenhum número isolado consegue representar o conjunto.

Um artista pode atravessar um período difícil exatamente no mesmo ano em que uma casa de leilões registra recordes.

Uma galeria pode reduzir sua equipe enquanto um colecionador paga centenas de milhões por uma obra.

Um determinado segmento pode esfriar enquanto outro encontra novos compradores.

O mercado funciona muito mais como um arquipélago do que como um continente homogêneo.

E onde entra o artista emergente?

Há um efeito curioso quando as notícias sobre o mercado se concentram quase exclusivamente nos grandes leilões.

Elas fazem parecer que participar do mercado significa aproximar-se daquele universo.

Para a maioria dos artistas vivos, porém, a economia cotidiana da carreira está muito mais próxima de outra escala.

Uma obra vendida diretamente.

Uma exposição coletiva.

Uma pequena galeria que decide assumir sua representação.

Uma feira regional.

Um colecionador que compra o primeiro trabalho.

Uma instituição que incorpora a obra a um acervo.

Essas pequenas transações podem parecer insignificantes diante de uma venda de US$ 100 milhões. Para uma carreira artística, elas podem ser muito mais importantes.

São elas que criam histórico.

E histórico é uma das matérias-primas invisíveis do mercado.

Talvez a recuperação mais importante aconteça longe do martelo

Existe uma boa notícia escondida nos dados de 2026.

A melhora dos grandes leilões já não parece completamente restrita às obras de valor estratosférico. A ArtTactic identificou crescimento em vendas diurnas, maior participação online e fortalecimento de lotes na faixa entre US$ 50 mil e US$ 500 mil.

A confiança pode estar descendo alguns degraus da pirâmide.

Mas ainda existe uma longa distância entre esse movimento e a realidade de milhares de artistas que constroem mercado pela primeira vez.

Talvez seja justamente nesse intervalo que precisemos prestar mais atenção nos próximos anos.

Nas pequenas galerias que conseguem permanecer.

Nos espaços independentes.

Nas plataformas criadas por artistas.

Nos coletivos.

Nas feiras regionais.

Na venda direta.

Nos primeiros colecionadores de uma trajetória.

O martelo que cai sobre uma obra milionária produz uma excelente manchete.

A construção econômica de uma carreira acontece muito mais devagar.

Às vezes começa com uma única obra saindo de um ateliê e entrando na casa de alguém que decidiu acreditar naquele artista antes que o restante do mercado soubesse seu nome.

Talvez seja por isso que a pergunta mais útil diante das notícias otimistas de 2026 continue sendo tão simples:

o mercado de arte está se recuperando. Mas para quem?

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