Zumví Arquivo Afro Fotográfico: a preservação da cultura negra na Bahia pelo Instituto Moreira Salles
Em uma sala cedida pela Igreja Católica da Penha, no bairro da Ribeira, em Salvador, encontra-se um acervo que expressa um conjunto único de imagens construído por e para a população negra da Bahia. Fundado em 1990 por três fotógrafos afro-baianos — Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro — o Zumví Arquivo Afro Fotográfico surgiu como uma iniciativa coletiva comprometida em reunir e preservar uma produção visual que coloca os próprios sujeitos negros da Bahia como protagonistas de suas narrativas.
Hoje, o arquivo contém mais de 30 mil negativos que documentam cotidianidades, trabalhos, rituais, manifestações culturais e políticas, abrangendo uma diversidade de territórios urbanos e rurais — desde as periferias de Salvador até comunidades quilombolas. Por meio dessas imagens, o Zumví questiona representações estereotipadas e exotificantes, geralmente produzidas por olhares externos, consolidando-se como um instrumento de memória, reconhecimento e reafirmação cultural focado na autoria negra.

Origem e construção coletiva do Arquivo Zumví
O Zumví foi fundado em 1990 por três fotógrafos oriundos das periferias de Salvador: Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro. Esses autores, provenientes de bairros populares da capital baiana, buscaram construir uma imagem da Bahia negra a partir de sua própria experiência e perspectivas, afastando-se dos padrões exteriores e estereotipados que vinham marcando a representação da população negra.
Além dos fundadores, o arquivo reúne a produção de diversos fotógrafos que colaboraram para ampliar a diversidade do acervo, entre eles Gerimias Mendes, Jônatas Conceição e Meire Cazumbá. O conjunto total contém mais de 30 mil negativos, constituindo uma documentação rica e plural. As áreas cobertas pelo arquivo incluem territórios como feiras, blocos afro, festas populares, terreiros de candomblé e comunidades quilombolas.
O Zumví se caracteriza por seu caráter coletivo e autoral, funcionando como um espaço de interlocução direta entre fotografia, pesquisa e comunidades negras baianas. A primeira sede do arquivo funcionou numa sala cedida pela Igreja Católica da Penha, no bairro da Ribeira, onde também foi instalado o laboratório fotográfico improvisado. Essa iniciativa reafirma sua posição como lugar de construção e preservação de narrativas negras protagonizadas pelos próprios autores.
Esse caráter coletivo se mantém ao longo do tempo por meio das colaborações, doações e parcerias que ampliaram o acervo. Essa pluralidade de autores e olhares é um dos traços centrais do arquivo, reforçando sua dimensão política e cultural, que se traduz em um protagonismo negro na produção e preservação da imagem, não mais em posição secundária ou como objeto de representação externa.
Contexto histórico e política da fotografia preta na Bahia
O surgimento do Zumví se insere no contexto da reorganização dos movimentos negros brasileiros durante o período da ditadura militar e, posteriormente, na redemocratização do país. Na Bahia, movimentos como o Ilê Aiyê, fundado em 1974, têm dupla condição cultural e política e são referências fundamentais para a constituição do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. Os fotógrafos do Zumví tiveram atuação direta no registro dessas expressões e em eventos políticos marcantes.
O arquivo documentou manifestações importantes, como os protestos realizados em 1988 por ocasião do centenário da Abolição da Escravidão e a visita de Nelson e Winnie Mandela à Bahia em 1991, quando blocos afro e afoxés se fizeram presentes com mensagens antirracistas. Esses registros evidenciam a função documental e política da fotografia como instrumento de resistência e expressão dos movimentos negros.

Além disso, os blocos afro e afoxés registrados no arquivo — incluindo Ilê Aiyê, Olodum, MNU e demais grupos — representam a cultura como ferramenta de luta, fortalecendo projetos identitários com referências africanas e reafirmação do protagonismo negro na sociedade. Essa relação entre cultura e política é traduzida nas imagens, que tornam visível o engajamento e a mobilização social desses coletivos.
O período de redemocratização ampliou a presença dos movimentos sociais na esfera pública, evidenciado em eventos culturais, ativismos e campanhas educativas, função que o Zumví também assumiu ao disponibilizar suas imagens para os próprios movimentos. Fotografias tornaram-se documentos de formação e mobilização, o que atravessou as práticas artísticas e políticas registradas.
Territórios e vida social registradas pelo arquivo
O acervo Zumví documenta a diversidade dos territórios da presença negra na Bahia. Entre os espaços centrais está a Feira de São Joaquim, localizada na Cidade Baixa de Salvador, que se destaca como um espaço de intensa circulação econômica, social e cultural. A feira reúne vendedores, artesãos e carregadores, muitos deles oriundos da comunidade quilombola da Praia Grande, situada na Ilha de Maré, reforçando as conexões entre territórios insulares e urbanos.
As comunidades quilombolas da Praia Grande e do Rio das Rãs, localizada em Bom Jesus da Lapa, fazem parte do núcleo rural do arquivo, mostrando práticas de pesca artesanal, extrativismo e produção cultural que articulam ancestralidade e organização comunitária. Fotografias de Lázaro Roberto e Meire Cazumbá documentam essa mobilização, evidenciando não somente aspectos tradicionais, mas lutas políticas relacionadas à regularização fundiária e à resistência ambiental.
Além das comunidades e feiras, o arquivamento inclui registros das mobilizações dos blocos afro e afoxés por diversos bairros de Salvador, destacando sua ocupação e atuação na cultura e política locais. O arquivo explora também a vida social cotidiana por meio dos trabalhos dos carregadores, cesteiras e artistas, evidenciando o fluxo e a circulação entre espaços e o papel relevante de suas redes para a continuidade cultural da população negra.
É possível perceber a articulação complexa entre espaços urbanos e rurais, bem como o entrelaçamento entre atividade econômica, práticas culturais, trabalho comunitário e religiosidade, aspectos fundamentais para entender a vida social negra da Bahia contemporânea. O Zumví registra esse conjunto tanto oferecendo imagens para as comunidades quanto reafirmando as narrativas de pertencimento e luta por reconhecimento.
Relevância institucional e pública do arquivo no IMS
A incorporação do Zumví Arquivo Afro Fotográfico na programação do Instituto Moreira Salles (IMS) representa um marco importante para a valorização da memória negra na cultura brasileira. O IMS, reconhecido pelos seus amplos acervos fotográficos, assume o compromisso de preservar e ampliar o acesso a este arquivo coletivo, que traz desafios institucionais relacionados a acervos que não são patromônio exclusivo, mas de grupos e comunidades.
A curadoria da exposição contou com a condução de Hélio Menezes, que destaca o papel do arquivo na reinterpretação da história social brasileira, contribuindo para a ampliação do conhecimento público sobre narrativas negras que historicamente foram marginalizadas. A exposição oferece um espaço para reflexão sobre o protagonismo negro em sua diversidade, por meio da ampliação do acesso ao acervo.
Essa parceria institucional promove o conhecimento e a circulação das imagens em diferentes linguagens, fortalecendo seu impacto educacional e cultural. O diálogo entre o arquivo coletivo e a instituição revela novas fronteiras para a preservação e difusão da cultura e história negra, contribuindo para que essas narrativas ocupem seu lugar de direito no cenário das artes e da memória nacional.
Expressões culturais negras nas imagens do Zumví

O arquivo Zumví reúne extensos registros de festas populares da Bahia, com destaque para a Lavagem do Bonfim, Festa de Iemanjá e a Festa da Boa Morte, esta última realizada pela Irmandade da Boa Morte, composta exclusivamente por mulheres negras e adeptas do Candomblé, em Cachoeira no Recôncavo Baiano. As imagens capturam a complexidade ritual e simbólica desses eventos, evidenciando o luto, a celebração e a identidade cultural negra.
Os blocos afro e os afoxés figuram como protagonistas visuais importantes no acervo, mostrando não somente suas manifestações culturais, mas também o enfrentamento ao racismo religioso por meio de marchas e caminhadas que ocupam as ruas com cartazes e estandartes. Essas imagens expressam a reivindicação de respeito às religiões de matriz africana e reiteram a luta antirracista.
Além disso, o arquivo documenta diversas manifestações artísticas e culturais, como o teatro negro e o movimento hip hop baiano. O Bando de Teatro Olodum e os encontros baianos de hip hop estão entre os registros que revelam o engajamento político e a construção identitária na Bahia por meio da arte performativa e musical, pautando o protagonismo e os discursos de negritude e criticidade social.
Todas essas expressões, reunidas pelo Zumví, compõem um panorama visual sólido que evidencia a riqueza, a diversidade e a vitalidade das culturas negras baianas, extrapolando estereótipos para apresentar seus sujeitos em suas múltiplas dimensões cotidianas, festivas, políticas e espirituais.
O acervo Zumví é, portanto, fundamental para a cultura brasileira e negra, não somente por sua extensão documental, mas por sua força de registrar e fortalecer identidades, lutas e histórias negras. O reconhecimento institucional pelo Instituto Moreira Salles fortalece essa importância e amplia o acesso público a esse patrimônio cultural.
Serviço
Exposição: Zumví Arquivo Afro Fotográfico – Instituto Moreira Salles
Link oficial: https://ims.com.br/2026/03/31/zumvi-arquivo-afro-fotografico-textos-da-exposicao/
Consulte a programação e as condições atualizadas de visitação no site oficial.
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