Quem vai decidir as regras da IA? Artistas precisam estar nessa mesa
Se você é artista, provavelmente já encontrou alguma versão desta pergunta: usar inteligência artificial ou não usar?
Para Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da Serpentine, em Londres, existe uma questão anterior e talvez mais importante: por que os artistas deveriam apenas receber uma tecnologia que outras pessoas já decidiram como construir?
Em entrevista publicada pela Vogue Business em 15 de setembro, Obrist defende que criadores participem das conversas em que a inteligência artificial está sendo desenvolvida, regulamentada e incorporada à sociedade.
A ideia desloca bastante o debate.
Em vez de colocar você apenas diante de uma ferramenta pronta, como usuário, cliente ou crítico, ela reconhece que artistas também podem contribuir para decidir como essa ferramenta deveria funcionar.
Artistas não precisam chegar apenas depois que a tecnologia está pronta
A Serpentine está tentando colocar essa ideia em prática com o Future Art Ecosystems R&D Fellowship, programa de seis meses iniciado em setembro.
Quatro profissionais foram escolhidos entre cerca de mil candidaturas internacionais: Alfredo Salazar-Caro, Alice Bucknell, Auriea Harvey e Reina Mun.
Eles vão desenvolver pesquisas sobre inteligência artificial e seus impactos na produção cultural, nas instituições e na vida pública. A proposta é conectar essas investigações também à indústria, à academia e às políticas públicas.
A diferença está justamente aí.
Você não precisa pensar em arte e tecnologia apenas como o momento em que um artista abre um programa e produz uma imagem.
A discussão também pode começar antes, quando alguém decide quais dados alimentam um sistema, quais escolhas aparecem em uma interface, como uma obra será identificada ou quais direitos o criador mantém.
Quem escolhe os dados também influencia o resultado
Grande parte da inteligência artificial generativa depende de conjuntos de dados.
Para você que cria, isso transforma uma questão aparentemente técnica em uma questão cultural.
Quem escolheu as imagens, músicas ou textos utilizados? Os criadores concordaram? Existem grupos muito representados e outros quase ausentes? Como autoria e contexto são preservados quando milhares ou milhões de obras entram em um sistema?
Obrist cita o projeto The Call, de Holly Herndon e Mat Dryhurst, como exemplo de artistas experimentando outras formas de trabalhar com IA. A pesquisa explorou maneiras de construir conjuntos de dados vocais com participação dos próprios criadores e colocou questões de consentimento, compartilhamento e propriedade intelectual no centro do processo.
Isso mostra a você que o artista pode interferir também na infraestrutura.
Não apenas na imagem que sai da máquina.
Autoria virou uma questão de design tecnológico

No Arte que Mora Aqui, você já viu essa discussão aparecer por outros caminhos.
As Content Credentials, por exemplo, tentam fazer com que um arquivo carregue informações sobre origem, edição, autoria e eventual uso de inteligência artificial. Isso significa pensar a procedência dentro da própria infraestrutura digital.
O PL 1778/2026, ainda em tramitação, leva outra parte da discussão para a legislação brasileira ao propor autorização específica para determinados usos de voz, timbre e imagem de artistas por sistemas de IA.
São problemas diferentes, mas eles se encontram em um ponto.
As regras que definem o futuro da criação não estão sendo escritas apenas dentro de ateliês.
Elas também aparecem no código, nos contratos, nos bancos de dados, nas plataformas e nas leis.
Se artistas não participarem dessas conversas, outras pessoas decidirão por eles.
O que um artista poderia ajudar a decidir?
Talvez você pense que definir uma tecnologia exige ser programador.
Não necessariamente.
Um artista pode trazer perguntas que uma equipe concentrada apenas em desempenho técnico talvez não faça.
Como você gostaria de ser informado antes que sua obra entrasse em um conjunto de treinamento?
Uma plataforma deveria permitir que o criador aceite alguns usos e recuse outros?
Como o crédito deveria acompanhar uma obra?
O que caracteriza consentimento real?
Se uma ferramenta comercial ganha valor a partir de produções de milhares de artistas, quais modelos de remuneração poderiam existir?
Como um sistema pode representar diferentes culturas sem simplesmente extrair imagens e referências de seus contextos?
Essas perguntas envolvem tecnologia, mas também envolvem experiência cultural.
E é justamente aí que artistas têm algo a oferecer.
A discussão não precisa ser reduzida a ser contra ou a favor da IA
Obrist evita uma resposta simples sobre se uma obra feita com inteligência artificial possui o mesmo valor de uma obra produzida sem ela.
Para ele, cada caso precisa ser analisado pelo que efetivamente produz e pelas questões éticas que envolve. A tecnologia possui riscos, limites e possibilidades que precisam ser considerados juntos.
Essa posição pode ser especialmente útil para você.
Você pode utilizar IA em determinada etapa do seu processo e rejeitá-la em outra.
Pode apoiar uma aplicação e discordar da maneira como outro sistema construiu seu banco de dados.
Pode experimentar uma ferramenta e, ao mesmo tempo, defender regras mais fortes de consentimento e remuneração.
Participar do debate não exige aceitar tudo o que a tecnologia oferece.
Por que isso importa para artistas brasileiros?
Para um artista independente no Brasil, as decisões sobre inteligência artificial podem parecer distantes.
Muitas das grandes plataformas estão fora do país. Os sistemas são desenvolvidos por empresas enormes. Os debates técnicos acontecem rapidamente e usam uma linguagem que frequentemente afasta quem não trabalha com tecnologia.
Mas os efeitos chegam ao seu cotidiano.
Eles aparecem quando sua imagem circula sem crédito, quando um cliente pede algo “feito com IA”, quando uma plataforma muda suas condições de uso, quando seu trabalho pode entrar em um conjunto de dados ou quando você precisa provar como uma obra foi criada.
Por isso, participar não significa necessariamente sentar no conselho de uma empresa de tecnologia.
Pode significar acompanhar legislação, participar de associações, exigir contratos mais claros, estudar ferramentas de procedência, discutir consentimento ou contribuir para projetos que desenvolvam tecnologias pensando também nos direitos de quem cria.
A Serpentine leva essa ideia ainda mais longe. Obrist argumenta que empresas e governos deveriam incorporar artistas às estruturas onde as decisões são tomadas, inclusive por meio de residências e espaços permanentes de participação.
O futuro da IA também é uma questão cultural
A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma corrida tecnológica.
Modelos maiores. Imagens mais realistas. Processamento mais rápido. Novos produtos.
Mas existe uma camada menos visível.
Cada sistema também carrega escolhas sobre o que pode ser usado, quem recebe crédito, quais comportamentos são permitidos e quem ganha com aquilo que foi construído.
Essas são decisões culturais.
E talvez seja essa a parte mais importante da provocação de Hans Ulrich Obrist para você.
O artista não precisa esperar a tecnologia chegar pronta para então decidir como reagir.
Pode ajudar a formular perguntas antes.
Porque, se a inteligência artificial vai participar cada vez mais da criação e da circulação cultural, existe uma pergunta que não deveria ficar restrita aos engenheiros e executivos:
que tipo de tecnologia queremos construir para quem cria?
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