Cultura Artística inaugura sala de artes visuais em São Paulo com exposição de Luísa Matsushita
Um teatro paulistano passa a receber o público também pelo caminho das artes visuais. A partir de 15 de agosto, o Cultura Artística inaugura uma sala expositiva permanente no primeiro andar de sua sede, em São Paulo, retomando uma possibilidade prevista no projeto original do edifício, desenhado por Rino Levi nos anos 1950.
A abertura acontece com Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, exposição inédita de Luísa Matsushita realizada em parceria com a plataforma ABERTO. A mostra reúne pinturas produzidas especialmente para o espaço e permanece em cartaz até 27 de setembro.
Uma sala pensada a partir da arquitetura

A nova área nasce de uma decisão que interessa diretamente à programação cultural: em vez de tratar a arquitetura como simples cenário, o projeto a coloca no centro da experiência. A proposta inaugura também o ABERTO Solo, formato da plataforma voltado a exposições individuais concebidas em relação direta com edifícios específicos.
Segundo Filipe Assis, idealizador e diretor geral da ABERTO, o novo modelo permite aprofundar a pesquisa em torno de um único artista e de seu universo visual. A escolha do Cultura Artística reforça essa abordagem. O edifício, reconstruído depois do incêndio de 2008, conserva uma vocação para o diálogo entre linguagens, presente desde sua concepção e visível também no painel Alegoria das Artes, de Di Cavalcanti, considerado o maior realizado pelo artista.
Para instituições culturais, a ativação dessa sala representa uma ampliação de repertório e de público. Para artistas e produtores, aponta para um tipo de parceria em que a exposição não é montada de maneira indiferente ao lugar: circulação, escala, materiais e memória arquitetônica passam a participar do processo de criação.
Luísa Matsushita transforma a noite em matéria pictórica
Conhecida também como Lovefoxxx, vocalista da banda Cansei de Ser Sexy, Matsushita parte de lembranças do centro de São Paulo e da vida noturna do Baixo Augusta, região onde viveu no início de sua trajetória. Essas experiências aparecem transfiguradas em pinturas abstratas, construídas por meio de camadas sucessivas de tinta a óleo.

A exposição se organiza como uma investigação sobre memória e ambiente. Em vez de ilustrar episódios específicos, as obras elaboram uma atmosfera: a cidade noturna surge como um campo de sensações, marcas e sobreposições. O resultado é uma pintura que se aproxima do modo como certas lembranças permanecem: fragmentadas, acumuladas e difíceis de separar do espaço onde foram vividas.
A relação com o prédio se expande para além da sala principal. No saguão, a artista instala uma obra de 15 metros de largura concebida especialmente para o Cultura Artística. A intervenção altera a escala habitual da pintura e acompanha os deslocamentos do público pelo teatro.
Há ainda um gesto discreto no foyer: uma mensagem pode ser percebida apenas por meio do reflexo no piso. “Você veio” aparece como uma espécie de aceno reservado a quem atravessa o espaço, transformando a presença do visitante em parte da obra.
Da pintura para a cerâmica e a joalheria
A mostra também se desdobra em duas colaborações com marcas de outros campos. Com a portuguesa Bordallo Pinheiro, Matsushita criou Memória de Planta, peça inspirada na folha de couve, elemento associado à história da fábrica. A parceria com a H.Stern levou referências da pintura Hambagu, de 2023, para uma pulseira de prata com rubis, esmeraldas e safiras.
Esses desdobramentos ampliam a discussão sobre o alcance de uma exposição contemporânea. A pesquisa da artista deixa o suporte tradicional e encontra a cerâmica e a joalheria sem perder sua origem pictórica. Para o Cultura Artística, a iniciativa estabelece uma frente permanente de artes visuais e cria novas possibilidades de encontro entre teatro, arquitetura, design e produção artística.
Com a nova sala, o público que chega para assistir a uma apresentação passa a encontrar também uma exposição integrada à experiência do edifício. A aposta do Cultura Artística é fazer dessa convivência uma prática contínua — e devolver às artes visuais um lugar que já estava previsto na história de sua arquitetura.
Respostas